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25 de abril de 2021

A Ilha dos Gatos: Parte II - Passos de gato

 


Exemplar do jogo cedido por Frank West, The City of Games

Ainda bem que decidiste vir! Parece que as minhas histórias de gatos despertaram o teu interesse, eh? Bem, e aqui estamos nós, na Ilha dos Gatos. Como podes perceber, pelos barcos ancorados, não estamos sós, há outros aventureiros por aqui, em busca de gatos, riquezas e fama. É melhor manteres-te perto de mim, observando e aprendendo com as minhas ações. Guiar-te-ei passo a passo. Este será um intenso dia de treino com as mãos na massa!




É o alvorecer. Está na altura de despertar!

Eu sei, por anos de experiência, o que vai acontecer em breve: os gatos vão sair dos seus esconderijos e dirigir-se, em números iguais, aos campos de ambos os lados da ilha. É como se fossem atraídos por nós, visitantes, aventurando-se nesta ilha, uma vez que aparecem sempre em número par, o dobro dos gatos, em relação ao número de exploradores na jornada. O que é intrigante, mas afortunado, uma vez que assim haverá gatos suficientes para toda a gente salvar.

Olha! Ali estão eles! Um Hissnipper e um Mhoxxite a olhar diretamente para nós, um Garmin à direita, um Teruvian a esticar-se encosta abaixo, e outro Teruvian ao lado, e mais uns quantos ao fundo. Uma vista maravilhosa, não é?

Sim, eu sei o impacto provocado pelo primeiro encontro com gatos às cores… mas agora para de mirar! Precisamos de tomar atenção e pensar rapidamente, uma vez que apenas poderão apanhar um de cada vez, dois no máximo, antes de os levar para o barco, esvaziar os cestos, e regressar para nova apanhada. E, entretanto, os campos ficarão à mercê dos outros, para fazerem as suas capturas. Precisamos por isso de delinear uma estratégia, de começar a fazer escolhas. Qual será hoje a nossa primeira opção? O Garmin de verde cristal?




Sim, claro, iremos às colinas, mas ainda tempos trabalho para fazer antes disso. Já te contei que são animais fugidios, que precisaremos de peixe para os atrair, e cestos grandes para os carregar até ao barco.

Primeiro, as primeiras coisas! E a primeira coisa do dia, de todos os dias, de facto, será pescar. Não és um pescador experiente, dizes? Não há problema! Os gatos são espertos, e terão escolhida esta ilha por boa razão: acontece que é abundante em peixe, tornando fácil a pescaria. Não há pressa, competição, dificuldades, para encontrar peixe fresco.

Concentremo-nos em apanhar vinte peixes fresco em cada dia. Nem menos, nem mais. Não me perguntes porquê, parece ser a quantidade certa para carregar. E será suficiente, quer para os gatos, quer para as nossas refeições. Caso, no final do dia, sobre peixe, guardá-lo-emos durante a noite, para nos servir amanhã. Os gatos não o recusarão.

Portanto, venham vinte peixes frescos!




Sim, sim … lá chegaremos às colinas. Mas antes, temos de nos sentar em círculo, com os outros aventureiros, e partilhar alguns planos para o dia. Bem, não os revelaremos todos, pois eles continuam a ser nossos competidores.

O dia passará depressa, pelo que será inútil considerar mais de sete passos de exploração. Porquê? Porque o tempo corre. E porque parece existirem por aqui alguns números mágicos: gatos aos pares, em dobro das pessoas, vinte peixes, sete passos … É uma ilha estranha.

Eis como isto funciona: primeiro pensamos nas sete possibilidades que temos para hoje; optamos por duas e passamos as restantes cinco a quem está sentado à nossa esquerda; ao mesmo tempo, recebemos cinco novas hipóteses, de quem está à nossa direita; escolhe mais duas; repete e, novamente, escolha duas; e uma última. No final voltamos a ter sete opções de exploração, mas não as mesmas que tínhamos no início.

Estarão em jogo cestos, botas de caminhada, lições, tesouros, gatos raros, peixe e alguns truques. Não é fácil, mas se o fizermos bem, aumentaremos as hipóteses de ter um bom dia. Claro que todos esperam alcançar o mesmo, e no final podemos mesmo todos vir a salvar mais gatos! 




Depois, é tempo de planear, já que cada passo implicará tempo e esforço, e também termos de comer! Assim, temos de escolher cuidadosamente o que vamos fazer durante o dia, sempre contando o peixe da nossa reserva, para garantir que teremos o suficiente para atrair uns quantos gatos.

Por isso, será avisado não querer fazer de mais em cada dia, equilibrando a exploração com o salvamento de gatos. Acho que ficamos apenas com estes quatro passos para hoje. O que te parece? Ok, e aqui vai, três, mais um, e mais outro, fazendo cinco peixes no total. Nada mau. Ainda ficamos com peixe suficiente para os bichanos. 




Não, ainda não é tempo de nos dirigirmos aos campos: é altura de estudar.

Pois, há lições para aprender em cada dia. Se recordares bem o que te disse, dias atrás, haverá lições que guardaremos para nós, não as partilhando com ninguém, e haverá lições para partilhar, lendo-as em voz alta, para que qualquer um possa fazer bom uso delas.

Tais lições, escritas pelos antigos, dizem-nos um pouco sobre o nosso próprio povoado, a nossa gente, revelando o que eles mais valorizam. Por isso, serão um guia precioso para esta jornada, se queremos ter uma receção calorosa no regresso. É necessário fazer as escolhas certas pelo caminho.




Ok, estamos quase prontos para correr encosta acima!

Vamos contar os cestos e dar-lhes o uso adequado. Lembra-te que alguns cestos são robustos, e podem ser usados uma e outra vez. Infelizmente, só trouxemos um desses no barco … pode valer a pena tentar arranjar mais alguns!

Entretanto, recorreremos a cestos que só serão usados uma única vez, já que estes gatos antigos têm garras, e não apreciam a viagem! Podemos até fazer cestos improvisados, um a partir de dois já quebrados.

Não te esqueças: um gato, um cesto.




Peixe, confere! Cesto, confere! Botas de caminhada, confere! Agora temos apenas de decidir se andamos, ou se tentamos deixar para trás os companheiros de jornada, de modo a podermos fazer a primeira escolha. Aperta as botas, porque elas são a chave para bem nos posicionarmos! 

Mas não te esqueças que, provavelmente, não teremos resistência para ultrapassar todos, todos os dias. É melhor encontrar o ritmo certo, para aproveitar ao máximo os cinco dias na ilha. 

Aqueles gatos no caminho da montanha, dizes? Estão sempre a observar-nos! É como se cada um deles tiver adotado um aventureiro distinto, e eles estão sempre por ali, em sincronia com a nossa posição nos campos. O roxo adotou-nos, e como vês, seremos os segundos a escolher no dia de hoje. Não que tenhamos qualquer vantagem, nem ara o caso, desvantagem, em salvar Vandermills, os gatos da mesma família do que nos observa. É como é, uma constante lembrança.




Chegou o momento há tanto esperado.

Foca-te nos cestos. Um cesto para cada gato. Dois cestos, dois gatos, ainda que normalmente um de cada vez. Não, esquece o Hissniper à esquerda, ou o Teruvian à direita. Um cesto carrega um único gato, mas pode ser de qualquer família. Deixa os desenhos de gato para o tempo caderno, como algo para mais tarde recordar.

Observa novamente os campos, os gatos que ainda lá estão em cada lado, o peixe na nossa reserva, os gatos já a abordo, o tempo de ir e vir, e depois … faz a tua escolha! 

Isso mesmo, os gatos do lado direito parecem estar sempre com mais apetite, e não virão por menos de cinco peixes … talvez porque a encosta seja mais inclinada, e normalmente demorem mais tempo a chegar à baía. É um pouco mais do que os três peixes necessários para os gatos do lado esquerdo. Algo a ter em conta no planeamento e na decisão sobre que gatos apanhar primeiro.




Boa captura, um Mhoxxite. Não foi assim tão difícil, pois não? Se tens peixe, terás um gato no cesto num piscar de olhos. Tão simples como isso!

Depois de apanhar um gato, há que rumar ao barco e libertá-lo a bordo. Ora não é uma coisa assim tão simples de se fazer, porque há muito em que pensar. Estas são criaturas que mudam de forma, e que requerem diferentes espaços no convés, circulando até por mais do que um compartimento. E, acima de tudo, não te esqueças das lições aprendidas.

Vejamos este Mhoxxite acabado de apanhar. Ficará melhor junto aos outros já a bordo, alargando a família, ou ficará em solitário? Preferiremos encher completamente o compartimento da lua a estibordo, mantendo o barco bem arrumado? Encontrará por nós um mapa de tesouro compatível? Afugentará alguns dos ratos? Ou deixá-lo-emos na amurada, de onde poderá ver, uma última vez, a ilha?

Tudo isto requer tempo de ponderação, e enquanto fazemos o percurso de ida e volta, os outros aventureiros estarão a tentar a sua sorte no resgate de gatos.




Agora que já salvámos alguns catos, e que as sombras alongadas assinalam o findar do dia, temos ainda tempo para um derradeiro movimento, para encontrar tesouros ou, talvez até, aqueles fascinantes Oshax.

E, uma vez mais, teremos de considerar como distribuir esta carga a boro. Talvez usemos os tesouros para preencher alguns espaços vazio, entre os gatos estendidos, para acabar de encher um dos compartimentos do barco, ou até para eliminar alguns dos ratos restantes!




Ao longo do dia fomos fazendo uso dos truques na nossa manga, para ganhar alguma vantagem: algum peixe adicional, um cesto novinho em folha para usar até ao fim da viagem, mais alguns tesouros. E podemos até ter ficado mais criativos no largar de gatos a bordo.

É todo um conjunto de coisas que não auxiliam a melhor completar a nossa missão. Mas to a atenção, os outros aventureiros, por seu turno, certamente também recorrerão aos truques que possuam.




À medida que a escuridão se entranha, todos os gatos adquirem aquele tom pardacento, tornando-se indistinguíveis, à medida que desaparecem dos campos para nunca mais serem vistos. Este dia chegou ao fim, e os campos de ambos os lados da ilha estão agora vazios. Na certeza, porém, de que amanhã, quando o sol fizer clarear a ilha uma vez mais, uma enxurrada de gatos, de outros gatos, encherá novamente os campos.




E pronto, está completado um dia inteiro na Ilha dos Gatos! Uma experiência e tanto, não é?

Após o quinto dia, os vigias avistarão as velas negras dos barcos de Vesh Mão-Escura. Não queremos deparar com uma frota dessas em mar aberto, nem ficar cercado na ilha. Será então tempo de partir.

Nada mais haverá a fazer: a missão chegou ao fim. Podemos descansar e admirar esta frota, agora bem mais colorida, navegando para casa.




Bem, não duvido que se encontrarão ainda alguns ratos a bordo, fazendo esta viagem de regresso por direito próprio, já que sobreviveram ao número crescente de gatos, e aos pesados tesouros espalhados pelo convés.




Após o regresso, em segurança, é tempo de fazer contas.

Como agora bem sabes, não se tratava apenas de salvar gatos, ou de reunir as maiores famílias de gatos. Isso claro que ajuda, no final, sem qualquer dúvida, mas as jornada foi também feita de lições privadas e partilhadas, tesouros, perícia na gestão do convés, e extermínio de rato!

Tudo isto conta, se queres ser saudado como o melhor salvador de gatos e caçador de tesouros! 




Posso afirmar, pelo teu olhar, que em breve regressarás à ilha, ou a ilhas semelhantes, tão grande é o apelo, e tão incerto o desfecho. E regressarás em companhia dos mesmos ou de outros exploradores, em família, ou até sozinho. Bem, nunca completamente sozinho, porque descobrirás que a tua irmã se infiltrou a bordo, e ela será uma temível adversária.



Agora vou repousar, antes de uma nova aventura, que já espera por mim mais à frente no caminho. Entretanto, não consigo deixar de imaginar como tudo isto deve parecer, na perspetiva de um gato, no alto da colina, espreitando o oceano para além da enseada, e busca de velas, barcos, e homens … 

17 de abril de 2021

A Ilha dos Gatos: Parte I - Histórias de gatos

 


Exemplar do jogo cedido por Frank West, The City of Games

O barco está pronto e prestes a levantar âncora. É tempo de desligar a música que estou a ouvir, sobre patas sujas e amigos peludos, algo relacionado com monstros e homens, por mais apropriada que possa parecer. Os sons que me rodearão nos próximos dias serão muito diferentes: o murmúrio das águas, o ranger do convés de madeira, o tamborilar dos cabos de encontro aos mastros, o silvo do vento acariciando as velas. Isto enquanto navegarmos para a ilha, preparados para iniciar a exploração, ansiosos por aprender novas lições ao longo da jornada, por procurar tesouros perdidos no tempo, e, acima de tudo, por resgatar gatos, muitos gatos!

Há algo de fascinante nestas criaturas que mudam de forma, capazes de se esticarem ao comprido sob o sol quente, de se enrolarem numa bola no inverno, ou de se enroscarem numa caixa demasiado pequena. E podemos ainda acrescentar os saltos elegantes, ou a mais completa imobilidade, o suave ronronar, e, claro, aquela pose inata de superioridade.

Ouvi falar de outras ilhas, habitadas por bem mais gatos do que humanos, rodeadas por um outro oceano, um que às vezes é pacífico. Aoshima é o nome de uma delas. Neko no shima, se entendes o que quero dizer. Sim, isso mesmo, Ilha dos Gatos.

Desculpa-me, estou a divagar … Como deu para perceber, gosto de gatos! Não que isso seja uma condição necessária para nos aventurarmos na Ilha dos Gatos, e apreciar os desafios que lá nos aguardam. Mas, bem, se também gostares deles, não duvido que verás esta viagem sob uma luz bem distinta.




Voltando à história, os nossos batedores de Ponta da Tempestade descobriram que, afinal, as lendas antigas eram verdadeiras. A Ilha dos Gatos está, de facto, povoada por raças antigas de gatos. Raças que rapidamente aprenderás a distinguir com um simples olhar, principalmente pelas suas cores, que nunca antes viste num gato, e pela sua cauda. Podes até aprender os seus nomes, ou pelo menos alguns deles.

The naming of cats is a difficult matter
It isn't just one of your holiday games
You may think at first I'm mad as a hatter
When I tell you a cat must have three different names *

Bem vês, há aquele nome razoável para ser usado todos os dias, com alguns gatos até a partilharem o mesmo nome, tal como acontece connosco, humanos. Depois, há o nome requintado, distinto, um nome que nunca pertence a mais do que um gato.

Of names of this kind, I can give you a quorum
Such as Munkustrap, Quaxo or Coricopat
Such as Bombalurina, or else Jellylorum *

Munk... Munkust... quê? Hmm, mais difícil do que esperavas, não? Tornemos isto mais simples. Não vais conseguir dizer o nome de cada gato da ilha. Fiquemo-nos pelo nome das famílias de gatos, não tão diferentes ao ouvido como os Munkustraps ou Jellylorums: os Hissnipers azuis, os Mhoxxites laranja, os Teruvians vermelhos, os Starry Vandemils rosas, os Crystal Garmins verdes, e os ainda mais únicos Oshaxs listados.

But above and beyond there's still one name left over
And that is the name that you will never guess
The name that no human research can discover
But the cat himself knows and will never confess *

Certo, o terceiro nome está claramente fora do nosso alcance!




Estamos quase lá, quase a chegar à enseada acolhedora. E, subitamente, sinto a pressão! Isto não será uma passeata pelo parque, porque trata-se de uma missão de resgate de emergência. As sombras aproximam-se, céleres, sob a forma dos exércitos flutuantes de Vesh Mão-Escura, que não pouparão ninguém no seu caminho! Não arriscaremos um encontro destes, e assim que for avistada a mão vermelha sobre as velas negras desfraldadas, deixaremos a ilha, para navegar de regresso a Ponta da Tempestade, em segurança.

Trata-se, de facto, de uma corrida contra o tempo, para resgatar o maior número possível de gatos, apanhar tesouros, e tirar partido das lições aprendidas. Cinco dias, de acordo com as melhores previsões. Cinco dias de trabalho árduo, da alvorada ao ocaso, para encher o barco, cumprir a missão, e enfrentar o escrutínio público no regresso.




Mas como raio vou atrair para o barco aqueles gatos de espírito livre, podes interrogar-te. De certeza não será com comida da cidade, uma vez que estão acostumados a ter peixe fresco como refeição! Bem, pescarei para eles, já que gatos serão gatos. Rapidamente acreditarão que fomos treinados para os alimentar e servir, tornando-se cada vez mais confiantes, sem esquecer que nunca rejeitarão um prato saboroso. Depois, atrever-se-ão até a roubar peixe de dentro dos cestos. E esse é o momento certo! Snap! Já percebeste, só é preciso fechar o cesto, e ala até ao barco.

Pois, sei que não trouxemos assim tantos cestos connosco, e é preciso um cesto para cada gato … Assim teremos de ir e vir, um gato de cada vez, soltando-os a bordo na certeza de que não saltarão para a água. Para a frente e para trás, tantas vezes quantas as necessárias, subindo com os cestos vazios, descendo com os felinos. Cestos, peixe e barcos (I hear you, fish and ships), é tudo o que precisamos. Mais cedo do que tarde teremos gatos a correr pelo convés.




Olha! Já há gatos a vaguear, pintalgando os campos com manchas de cor. O campo do lado esquerdo da ilha parece de mais fácil acesso, mas pode ser preferível apanhar alguns gatos no lado direito, já que esta viagem não se resume a fazer a primeira captura, nem a mais fácil.

Até porque, no regresso, valerá a pena manter as famílias de gatos juntas e numerosas. E é por esta razão que haverá alguma escolha dos gatos a resgatar, confiando que, entre todos nós aventureiros, muitos gatos serão salvos, e os barcos regressarão bem carregados.

Já antes falei dos tesouros? Tens a certeza? Sim, tesouros, perdidos no tempo. Espalhados por toda a ilha. Porque não enriquecer, enquanto resgato gatos?

Um pequeno detalhe que não podemos esquecer: quando o sol se deita, os gatos que ainda estão nos campos desaparecem rapidamente nas sombras que se alongam, para não mais serem vistos! O sol levantar-se-á outra vez, assinalando um novo dia, e gatos descerão para os campos. Mas serão outros gatos, não os mesmos do dia anterior. Por isso, há que escolher bem!




Chegou o momento de explorar a ilha. E estas botas, como a maioria delas, são feitas para andar. E eu andarei. Poderei até correr! Mas tenho de escolher o rito certo, uma vez que ficaremos aqui cinco dias, sempre com gatos diferentes para resgatar, em cada um deles. Às vezes precipitar-me-ei, para ser o primeiro a chegar aos campos, e escolher o gato para apanhar, enquanto outras vezes tomarei o meu tempo.

Sempre alerta. Olhando em frente, para avistar os gatos nos campos; olhando sobre o ombro, para medir a competição; olhando para trás, para a enseada, para avaliar a carga de cada barco, tentando descortinar os planos dos rivais.




Haverá lições para aprender, ao longo do caminho. Ouvindo, ou melhor, lendo, os pergaminhos dos antigos. Serão um guia para esta viagem, ajudando a decidir, a escolher sabiamente, a planear um exitoso regresso a casa.

Algumas lições serão partilhadas com os companheiros de aventura, e caberá a cada um fazer bom uso delas. Outras serão mantidas em segredo, apenas ao alcance dos nossos olhos. E ainda outras não terão qualquer uso. É preciso lê-las cuidadosamente, e tê-las sempre presentes ao delinear a estratégia para os dias que se seguem.

No final da expedição, quem será reconhecido como o explorador de maior sucesso que alguma se vez aventurou na Ilha dos Gatos?




Já antes falei dos tesouros? A sério?! Desculpa, estou a repetir-me... Deve ser deste sol escaldante… Dizia eu, há tesouros, e há tesouros. Alguns são daquele género mais comum, não muito grandes, e fáceis de encontrar nas encostas. Mas há também verdadeiras raridades, feitas de pedras preciosas grandes e brilhantes. Com a sorte do nosso lado poderemos apanhar uma mão cheia!

Felizmente que o barco não é assim tão pequeno, havendo espaço suficiente no convés para gatos e tesouros. Ainda assim, o próprio carregamento dá que pensar, até porque não haverá tempo para o reorganizar mais tarde, e queremos manter juntas as famílias dos gatos, enquanto empilhamos cuidadosamente os tesouros nos cantos e espaços vazios, ao mesmo tempo nos tentamos livrar daqueles ratos irritantes que fizeram clandestinamente toda a viagem.




Um verdadeiro achado seria cruzarmo-nos com alguns Oshax, aquela rara raça de gatos, com listas avermelhadas e tufos verdes. Esses, não encontraremos nos campos abertos, junto dos outros gatos. E sabe-se que comem muito! Uma espécie de realeza, por estas bandas.

No entanto, são mais amigáveis do que se poderia supor, e integram-se bem numa família normal de gatos. É por isso que deves apresentá-los a outros gatos, mal os colocas a bordo, e eles passarão a ser membros leais dessa família, preservando simultaneamente a sua pose característica.




Nesta corrida para bater a aproximação de Vesh Mão-Escura, e os outros aventureiros, terei, sem dúvida, que recorrer a alguns truques, aqui e ali, para ganhar vantagem. Seja para pescar um pouco mais do que o habitual, usar cestos improvisados, explorar mais para o interior da ilha, afugentar gatos de um campo para outro, capturar dois deles de uma vez só, ou fazer um melhor uso do espaço disponível no convés. Vale tudo! É só dizeres!




Como já sabemos, os gatos dão-se bem em família. Mas é preciso não esquecer as lições aprendidas, em privado ou em grupo, ao decidir o paradeiro de gatos e tesouros no convés. Gatos, tesouros, mapas, e ainda alguns ratos. Uma bela visão! E ainda não acabamos!




Agora fazes uma melhor ideia do que é necessário para embarcar numa jornada de resgate de gatos. Mas não te iludas: é preciso experimentar em primeira mão!

Porque não me acompanhas durante um dia inteiro na Ilha dos Gatos? Estarás em segurança, tendo-me como guia, enquanto, talvez, te revele mais alguns segredos desta arte. Isso é um sim? Ótimo! Encontramo-nos aqui ao terceiro raiar do sol. Até lá.


* Cats Libretto, © The really useful group. Do musical baseado em Old Possum's Book of Practical Cats, de T. S. Eliot.

27 de fevereiro de 2021

Days of Ire: Ep.7 - Budapeste 1956 e mais além

 

“A 30 de Outubro, o cardeal Mindszenty foi libertado (…). O governo de Nagy anunciou a realização de eleições livres. O coronel pôs as suas tropas à disposição do governo.”
Martin Gilbert, “História do Século XX” 


Days of Ire: Budapest 1956 termina neste dia 30 de outubro. No entanto, este não foi o final da história da revolução húngara. Um enorme contingente de tropas soviéticas cruzou a fronteira húngara a 1 de novembro, deslocando-se em direção a Budapeste. Imre Nagy nomeou um novo governo e retirou a Hungria do Pacto de Varsóvia. O coronel Pál Méter foi promovido a general e tornou-se Ministro da Defesa. Ergueram-se barricadas por toda a cidade e as pessoas preparavam-se para lutar. E o combate aconteceu. Sem sucesso. As forças soviéticas rapidamente controlaram Budapeste. Méter e Nagy foram presos e mais tarde, em 1958, executado.

Durante a revolução foram mortos mais de 2500 húngaros e 700 soldados soviéticos, e 200 000 húngaros tornaram-se refugiados (fonte: Wikipedia). János Kádár, o novo chefe de estado, permaneceria no cargo durante mais de 30 anos, quase até à queda do Muro de Berlim e ao colapso da União Soviética.


Pesquisando nos meus livros, encontrei informação sobre o posicionamento do Leste e do Oeste.




Os líderes ocidentais não pareciam estar preparados para um movimento popular interno desta dimensão. Como Henry Kissinger reflete, no seu livro Diplomacia, que contém um capítulo inteiro sobre estes acontecimentos, “Hungria – Sublevação no Império”, uma explosão destas não tinha sido antecipada, apesar de toda a retórica americana sobre “libertação”. Washington permaneceu em silêncio mesmo quando trabalhadores e estudantes lutavam nas ruas contra tanques soviéticos. O apelo ao Conselho de Segurança da ONU não surtiu efeito, uma vez que, à data da votação de uma resolução, os tanques soviéticos dominavam Budapeste. E a Realpolitik impõe-se: insistir nos princípios, corretos, poderia ter empurrado os dois blocos para uma guerra, e mesmo para uma guerra nuclear.




Para perceber melhor o estado de espírito soviético, e o impacto destes acontecimentos ao longo das décadas seguintes, vale a pena ler a biografia de Gorbachev escrita por William Taubman. 

Por altura da revolução, Yuri Andropov, que mais tarde fomentou a ascensão de Gorbachev, era o embaixador soviético em Budapeste.

Andropov, que apelou à intervenção enviando fotografias de corpos dependurados de comunistas húngaros, desenvolveu o que alguns designam por “complexo húngaro”, o receio de que revoluções das bases conduzissem a governos populares. Ele sabia que, ao contrário da versão oficial, a revolta não fora instigada do estrangeiro, mas sim um levantamento genuíno da população, e do proletariado, contra o regime. E por esta razão foi apologista da tese das reformadas controladas, de cima para baixo, de forma a evitar potenciais rebeliões.

Quase trinta anos mais tarde, em meados da década de 1980, Gorbachev afirmou perante o Politburo: "Os métodos usados na Checoslováquia e na Hungria já não são bons; não irão funcionar!”, declarando pela primeira vez que a força militar não seria usada para manter o controlo sobre a Europa de Leste. 

Mais, ele não considerava a maioria dos líderes dos países da Europa de Leste como seus iguais e capazes para a diplomacia moderna, com exceção de Jaruzelski, na Polónia, e de Kádár, já doente, na Hungria. Mas a mensagem não passava de forma clara no exterior, e os líderes continuavam a acreditar numa intervenção soviética, caso necessário, para se manterem no poder. 

Do outro lado da cortina, o Ocidente mantinha-se cético quanto às intenções reais de Gorbachev.



                            Wikipedia                                              
                            Fonte: Hungarian State Security Archieves                                 


Pouco sabia sobre a Revolução Húngara, e sobre o seu impacto, quando comecei este projeto. Não muito mais do que uma ideia vaga de combates de rua, com pessoas comuns de um lado e blindados do outro. De facto, enquanto crescia, a história da Europa de Leste posterior à Segunda Guerra Mundial não constava das matérias das aulas de história, e seriam mais comuns referências, noutros meios, a Dubcék e à Primavera de Praga de 1968.

Adicionalmente, e durante um determinado período, encontrava-me mais atraído pelas batalhas abertas da Segunda Guerra Mundial, na Europa, no Norte de África e no Pacífico, mesmo enquanto acompanhava a política da Guerra Fria em finais da década de 1970 e início da década de 1980, pontuada, entre outros, pelos boicotes às Olimpíadas de Moscovo (1980) e Los Angeles (1984).

Tenho memórias mais vivas do final da década de 1980, com a ascensão de Mikhail Gorbachev, a queda do Muro de Berlim, a subsequente reunificação da Alemanha e o colapso da União Soviética.


Isto foi muito mais do que uma experiência de jogo, pois tornou-se uma experiência de aprendizagem, não apenas dos acontecimentos da Revolução Húngara, mas também das linhas e dos nós que mantêm a teia da História intacta, ligando passado, presente e futuro.


A cena internacional é hoje muito diferente da daqueles outros tempos em que a Guerra era Fria, a Cortina era feita de Ferro, e Berlim estava dividida por um Muro, reduzindo agora as possibilidades de ocorrerem intervenções externas diretas.

No entanto, não tem havido escassez de conflitos internos, em anos recentes, com as pessoas mobilizadas nas ruas, blindados a ocuparem o centro das cidades e militares a intervir, como no Irão (2009), Egito (2011), Ucrânia (2013), Bielorrússia (2020), ou Birmânia (2021), para mencionar alguns.

E a Polónia e Hungria, agora membros da Uniões Europeia, estão novamente em consonância, mais por razões indesejáveis: estão sujeitas a escrutínio apertado e foram desencadeados contra elas, em 2017 e 2018, respetivamente, procedimentos ao abrigo do Artigo 7 do Tratado da União, significando que se considera existir um sério risco de incumprimento dos valores fundamentais sobre os quais a UE se baseia.


A História está continuamente em construção!


26 de fevereiro de 2021

Days of Ire: Ep. 6 - O desfecho da revolução

 

“Passamos a noite, sem pensar em dormir, ajudando a descarregar e a carregar camiões no posto húngaro de alfândega. Quase esqueceremos que era suposto sermos jornalistas, e que havia uma história noticiosa. É tão mais do que isso …”
[Tradução] Frederick ("Fritz") Hier, A Hungarian Diary, 28 October, ao serviço da Radio Free Europe


Zsombat,  Október 27 

Muito longe, do outro lado do Atlântico, havia apelos ao Conselho de Segurança da ONU. Um sinal de esperança. Mas a política internacional movimenta-se demasiado lentamente para quem está no terreno.

Ao mesmo tempo, surgia agora uma oferta de amnistia sobre a mesa, concebida para parar a revolução ou, pelo mesmo, semear a incerteza. A proposta teve os seus efeitos e, entre nós, Valéria optou por abandonar a luta.

Ouvíamos dizer que, do outro lado da barricada, havia também atiradores furtivos a retirar, mas tudo estava demasiado enevoado.




A velha camioneta continuava a cruzar as ruas de Budapeste, e lá íamos nós outra vez, Imre e eu, à Universidade, buscar Ferenc, a caminho de Csepel.

Ferenc é um génio com aparelhos de comunicação, e assim conseguíamos improvisar emissões de rádio, para espalhar a voz da revolução. Ainda para mais, nós sabíamos que as pessoas escutavam ansiosamente a rádio e que confiavam em nós. O nosso moral nunca tinha sido tão elevado, apesar de todas as adversidades. 

A Passagem Corvin era agora um dos nossos bastiões, com civis armados a assegurar o seu controlo.
No entanto, a troca de tiros com as milícias era recorrente, à medida que avançávamos através da cidade, e acabei por ser novamente ferido.


Vasárnap, Október 28



Um vislumbre de esperança, com tréguas a serem declaradas. Esperávamos que as trovas soviéticas retirassem, abrindo espaço para que nós, os húngaros, tomássemos o destino nas nossas mãos. Mas não seria desta. As tréguas foram quebradas e os tanques soviéticos fizeram a sua reentrada em pelo menos quatro locais. Os acontecimentos tornam-se mais sombrios.

Há ainda mais forças blindadas a chegar, enquanto que os líderes do partido abandonam o País, e também ao HWPP chegam mais reforços.

Estamos a ficar em inferioridade numérica. Estamos a ficara encurralados.

A Rádio Europa Livre continua a proporcionar uma frágil luz neste dia negro, mas não temos a noção do efetivo impacto da sua ação, e o relógio parecer bater mais rapidamente.




Deslocamo-nos agora para a Praça Blaha Lujza, mais perto das forças inimigas, quando um novo combatente, Péter Hajas, se junta ao grupo. Enquanto nos movíamos, um tanque abriu fogo, e fui atingido por estilhaços. Rapidamente fui tratado no local, graças à mala de primeiros-socorros que transportávamos. Pelo menos estava em condição suficientemente boa para sair dali para fora.

Conseguimos escapar e juntámo-nos, com Ferenc e Péter, a um novo protesto que decorria junto à Estátua de Bem. Sempre a jogarmos ao gato e ao rato. Mas estes protestos eram sempre importantes para manter um nível elevado de apoio, ao mostrar que o poderio militar não era suficiente para nos quebrar.


Hétfő, Október 29

Continuávamos a ser procurados por pessoas que queriam participar nos protestos, nas manifestações, e nas lutas. Desta vez foi János que veio ter connosco, com a sua carrinha.

Tentávamos aproveitar ao máximo a confusão que parecia ter-se apoderado das tropas inimigas, que se deslocavam para trás e para a frente, descoordenadas. Precisávamos apenas de um derradeiro impulso para manter o controlo popular sobre os acontecimentos que decorriam nas ruas de Budapeste. Mas mas do outro lado, forças continuavam a acumular-se. E sabíamos também que havia ainda mais atiradores furtivos no nosso encalço.




Ouvimos dizer que a situação em Kossuth era muito má, com as armas a disparar sem freios, muitos feridos ou mortos, um banho de sangue. Pegámos em todo o nosso abastecimento médico e corremos para lá. A situação era crítica, mas conseguimos ajudar uma boa dose de pessoas e, até, desviar um tanque que se encontrava nas imediações.

Mesmo com tudo isto, não havia tempo a perder, e tinha de me encontrar, em breve, com Marta, no Astoria, onde poderíamos contar também com a ajuda de Ilóna, uma especialista em emergência médica. Havia tanques nas proximidades, mas evitamo-los.




Todos sentíamos que era agora ou nunca. Sabíamos que a vitória era possível. Corríamos, passando junto à Rádio, a Passagem Corvin, e de volta à Universidade.

Ter Ilóna connosco foi essencial uma vez que, junto à Universidade, uma ambulância fora atingida, e era necessário prestar auxílio. A nossa equipa enfrentou, com sucesso, mais um teste.
 
Novamente no ponto de partida, na nossa Universidade. O sol põe-se, neste outubro ameno, a noite cai sobre Budapeste. Passara uma semana, era difícil recordar todos os momentos de frenesim, e desligar de tantas imagens e sons cravadas nas nossas mentes. Eu não estava bem, já que a movimentação e ação constantes não permitiam sarar as feridas em condições. 


Kedd, Október 30 



Chegara o tempo de efetuar uma avaliação séria da situação.

Apesar das feridas e dos combatentes perdidos - Margit, Júlia, István -, conseguíramos efetuar ações decisivas por toda a cidade, resolvendo com êxito a maior parte das situações críticas e a maioria dos confrontos.

Estávamos tão perto de alcançar a vitória …

No entanto, havia demasiadas milícias em operação, e as pessoas receavam, cada vez mais, sair para a rua. A movimentação era cada vez mais difícil. A pressão armada não mostrava sinais de esmorecer. Os recrusos começavam a escassear.

E se nos tivéssemos envolvido mais na luta armada?
E se tivéssemos atacado mais a milícia?
E se …

A realidade abateu-se sobre nós, o nosso moral esvaiu-se, sabíamos que já não valia a pena continuar.

A revolução fracassara.


25 de fevereiro de 2021

Days of Ire: Ep. 5 - Juntei-me à revolução!

 


“De acordo com o Artigo 34 da Carta, os Governos de França, do Reino-Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, e dos Estados Unidos da América, solicitam a inclusão, na agenda do Conselho de Segurança, de um ponto intitulado “A situação na Hungria”, e solicitam ainda que convoque uma reunião urgente do Conselho de Segurança para apreciação deste ponto.”
[Tradução] Carta ao Presidente do Conselho de Segurança, 27 de outubro de 1956


Foi uma noite agitada. Éramos mais de 2000, juntos no encontro na Universidade, e quando a razão para a permanência das trocas soviéticas na Hungria foi questionada, o ambiente começou a mudar. Sentindo-nos com poder, o nosso foco transferiu-se das questões estudantis para a democracia e verdadeira independência.  Pouco depois estávamos a redigir as nossas exigências!


Kedd, Október 23




Há notícias recentes. Tanques e milícias foram avistados nas ruas. Há também relatos, dispersos por Budapeste, de disparos de atiradores furtivos.

Ficámos a saber que Zhukov tinha ordenado às forças soviéticas que ocupassem o centro da cidade. Duas unidades blindadas foram detetadas perto da Passagem Corvin e da Estátua de Bem. Mas cresce o apoio popular às nossas ações, dissipando as dúvidas iniciais, e o nosso moral é reforçado. Ouvimos agora dizer que Imre Nagy regressou ao poder! Entretanto, as multidões queimam propaganda, sinal de que a guerra da informação está ao rubro.

Deixei a Universidade e caminhei ao longo do Danúbio, em direção à Estátua de Bem, carregando comigo algumas “garrafas”.




À chegada encontrei-me com Júlia e, de facto, ali estava um tanque enorme no meio da rua, ameaçando a multidão. Assim que chegámos, abriu fogo! Tivemos sorte em não ser atingidos. Não era um momento para segundos pensamentos, era um momento para ajustar contas.

Tínhamos ambos cocktails Molotof nas mãos, aproximámo-nos tanto quanto possível, e lançámos os cocktails para o tanque, que ficou em chamas. Apenas nessa altura tomámos consciência, pela primeira vez, que até as todo poderosas forças soviéticas poderiam ser derrotadas nas nossas ruas, com pouco mais do que mãos nuas!

De seguida, ainda a tremer, dirigimo-nos juntos à Praça Széna, onde Marta Wawelska, uma amiga comum, se juntou a nós, também ela pronta para caçar tanques.

Mas a milícia e os atiradores furtivos andavam à nossa procura, depois da nossa ação em Bem. Mais uma vez escapámos ilesos. Não sei por quanto tempo conseguiremos evitar as balas…


Szerda, Október 24 

Foi imposto o recolher obrigatório, mas não seria isso que nos iria parar. Tínhamos apenas de encontrar novas formas de nos deslocar. Inesperadamente, algumas unidades de milícia retiraram, dando a entender que existiria confusão e hesitações nos seus líderes. Talvez fosse possível pressionar um pouco mais, quem sabe, e elas depusessem as armas.

Num ato de desobediência, cantava-se o hino nacional junto à Estátua de Bem. Imre, que se encontrava no local, aderiu de imediato à nossa fação. Daria jeito para angariar provisões. 

Quase na mesma altura, István Kopasz aderiu ao movimento, na Universidade, contribuindo com o seu à-vontade com armas ligeiras e munições.

Enquanto Péter Veres lia o manifesto, em público, István juntou-se a nós na Praça Széna, e Júlia e Marta dirigiam-se para Kossuth, em busca de tanques soviéticos.

Os nossos números aumentavam constantemente, as nossas capacidades diversificavam-se, e podíamos sentir o crescente apoio popular.




No momento em que a milícia invadiu a praça, István abriu fogo e atingiu dois deles. Não poderia ter chegado em melhor altura, mas temíamos que a situação pudesse entrar numa espiral descontrolada, provocando inúmeros mortos e feridos, muitos dos quais seriam companheiros civis. No entanto, todos sentíamos que já não era possível voltar atrás.




Havia pessoal médico em Széna, tratando feridos sem cuidar de saber de que lado estavam, qual a sua nacionalidade ou uniforme, e arriscando a vida ao fazê-lo. Um médico tinha acabado de ser ferido por tiros disparados indiscriminadamente.

Tempo de continuar a andar, pois é má ideia ficar demasiado tempo no mesmo sítio. István e eu voltámos à Estátua de Bem, onde se encontrava Imre, e os três fomos até à Praça Kossuth. Júlia e Marta já lá estavam e tinham assinalado mais um tanque soviético a abater.

O vento soprava de feição e, pelo segundo dia seguinte, estoiramos com um tanque, mais uma vez sem quaisquer baixas do nosso lado.




No entanto, o maior perigo do momento não provinha dos tanques imóveis nas ruas, mas dos atiradores furtivos escondidos nos edifícios mais altos. 

As nossas ações violentas não passavam despercebidas e, de alguma forma, tinham conseguido localizar-nos. Umas tangentes, até ser atingido. Apenas duas feridas superficiais, mas que tiveram o condão de afetar o moral. Sabíamos quão depressa tudo poderia acabar…


Csütörtök, Október 25 

Boas notícias vindas do exterior! Parece que havia algum envolvimento da CIA por aí. Será que os Americanos, finalmente, vão fornecer apoio a sério no terreno, armas, abastecimentos, informação? Isso poderia mudar, de vez, a maré a nosso favor.

Decidimos, entretanto, ir ao Astoria, onde se nos juntou Valéria Pille. Era altura de reunir uma equipa e atacar de novo.

Assim, fomos uma vez mais à Universidade, onde Imre iria ficar algum tempo, organizando mais uma fornada de abastecimentos. Sabíamos poder contar sempre com o apoio dos nossos colegas estudantes, e continuamos também a insistir para que as nossas exigências fossem escutadas.

Valéria convidou Margit para vir connosco, e os três partimos em busca de blindados, desta vez indo por Csepel.

Houve disparos da Milícia, quer em Csepel quer na Universidade, mas sem consequências.


Penték, Október 26 

A situação geral continuava indefinida. Por um lado, parecia haver divisões no campo soviético, em que uns não eram a favor da intervenção militar e buscavam outro tipo de solução. Por outro lado, os blindados estavam mais ativos do que nunca no terreno, provavelmente tirando partido da cobertura de um bloqueio noticioso, destinado a evitar o aumento da pressão internacional.




Para o melhor, a revolução tinha agora o seu próprio blindado! Acabado de chegar à Passagem Corvin! Continua a batalha pelo controlo das ruas, e estamos ansiosos por as libertar da presença dos blindados soviéticos.

Por isso fomos para Corvin, mais determinados do que nunca, prontos para uma nova tentativa contra os blindados soviéticos. E tivemos êxito! O terceiro, graças ao esforço combinado com Margit and Valéria. Mas foi um sucesso de pouca dura, já que Margit foi atingida com gravidade na troca de tiros que se seguiu.




Mais tarde, nesse mesmo dia, ainda perto de Corvin, juntou-se a nós Ferenc, um perito em comunicações. Fomos uma vez mais à Universidade, o nosso ponto focal para reagrupamento e reorganização.

Seguindo uma sugestão de Ferenc, começámos a remover dos edifícios, sempre que possível, a estrela vermelha de cinco pontas, como uma afirmação pública de que a era do controlo soviético de Budapeste chegara ao seu final. 



É preciso continuar em movimento, pensei!

Desta vez, atravessei a cidade na caixa aberta de uma camioneta, em companhia de Imre e Valéria. Fomos a Széna, onde organizámos um grupo de combatentes, a quem ensinámos a arte de construir barricadas de rua, recorrendo ao que se encontrar à mão.

Não sem mais uma troca de tiros com a milícia, escapando uma vez mais à justa. Mas agora estava bem armado, com uma PPsh-41, uma pistola-metralhadora, ironicamente, de fabrico soviético, a quem eles chamavam papasha.

Encontrava-me ainda a recuperar do tiroteio quando soube que Júlia e István tinham sido abatidos por atiradores furtivos, algures para os lados da Praça Kossuth.

Quatro dias, e a linha que separa vida e morte vai ficando cada vez mais fina.


Continua ...