24 de outubro de 2021

Bem-vindo ao Escritório!



O exemplar do jogo foi cedido por Wonmin Lee, criador e editor de Welcome to Sysifus Corp, para a escrita da história que encontrarão mais abaixo.

O meu primeiro contacto com Wonmin Lee data de há dois anos, quase até ao dia. Estávamos em outubro de 2019, e tive a oportunidade de fazer alguns comentários ao livro de regras então disponível. Avançando rapidamente (ou não tão rapidamente) um ano, o jogo preparava-se para ser lançado no Kickstarter, onde acabaria por obter financiamento. 

Em setembro deste ano, Sysifus Corp foi finalmente publicado. E logo começou a procura por dedicados e ambiciosos colaboradores! Deixem-me então falar-vos do tempo que passei enquanto trabalhador da Sysifus Corp...




Foram dias cheios de esperança, ilusões e desilusões, que permanecem ainda frescos na minha memória. Também por culpa de vestígios desses tempos, dispersos pela casa, como este papel amarrotado, que parecia manter-se à espreita, por baixo da secretária. Com toda a certeza errei a pontaria e falhei o cesto dos papéis, naquele dia...

Lembro-me claramente do instante em que recebi “aquela” carta, assinada pelos Chefes! Dizia "Caro Empregado", e esse era eu! "É com grande prazer e orgulho que damos as boas-vindas à grande Família Sysifus Corp (...)". Tinha conseguido! 

Umas meras semanas antes, estava à procura de um novo emprego. Foi então que me deparei com um anúncio da Sysifus, com o seu característico aspeto minimalista e arejado, o fundo num branco forte, as formas geométricas sobressaindo, em roxo, verde e vermelho. Já tinha ouvido falar deles, nada muito específico, tanto quanto que me recordo, mas detinham uma aura considerável de empresa em rápido crescimento, envolvida em coisas de grande gabarito. Só muito mais tarde me viria a aperceber do posicionamento cuidadoso daquelas formas, o cubo empurrando o cilindro sobre a pirâmide, e o que tudo isso indiciava.

Mas não atalhemos a história. O trabalho parecia encaixar muito bem nas minhas características, e as perspetivas de uma carreira de rápida progressão fizeram o resto. Logo de seguida estava a burilar cuidadosamente uma carta de motivação e a atualizar o meu currículo. É preciso maximizar as hipóteses, e, no fim de contas, cada pequeno detalhe pode fazer a diferença! Pouco tempo depois, recebi a carta de confirmação.

 


A carta vinha acompanhada de um pacote de boas-vindas! Era por demais notório o empenho dos departamentos de Marketing e de Recursos Humanos: um Manual de Boas-Vindas aos Novos Colaboradores, cobrindo as bases das rotinas diárias; um Dossier de Referência das Políticas do Escritório, detalhando esses aspetos de índole mais obscura; e uma Folha de Dados de Colaborador, para monitorizar as ações diárias, complementada com pequenas notas úteis.

O lema da empresa, "Abrindo caminho até ao topo", estava presente em todo o lado, e eu já sonhava em chegar lá, ao topo, mesmo ainda antes de ter começado!

Não posso negar que havia alguns aspetos intrigantes. Primeiro, a existência de três chefes, e não apenas um. Depois, aquela pequena referência a mim como um “dente da maquinaria” da empresa, algo que não estava à espera no âmbito de uma visão empresarial; pensei que teria apenas o significado de começar devagar, antes de ser capaz de engrenar as mudanças mais poderosas. Por último, mas não menos importante, o ponto em quer eu era referido como um mero número, Empregado #318996, no Dossier de Referência. Um pouco impessoal, mas, quem sabe, mais eficiente.

Nada muito preocupante, pensei. 
Nada que arrefecesse o meu entusiasmo! 




Chegou o primeiro dia, e lá estava eu, às 8 h em ponto, no átrio da Sysifus Corp. Pequena surpresa, havia mais três recém-entrados, prontos para a sessão de enquadramento dos novos empregados. Passarei a chamá-los Ana, Artur e Alfredo, uma vez que não quero revelar a sua verdadeira identidade, por razões que mais tarde se tornarão claras. 

Pouco depois foram-nos entregues fatos de empresa, novinhos e coloridos, que nos identificavam facilmente como recém-chegados, aos olhos de toda a empresa, ao mesmo tempo que nos distinguiam uns dos outros. Estava-me destinado o de cor vermelha.

Logo de seguida, boas e más notícias. Comecemos pelas boas. Iríamos trabalhar em vários projetos, iniciando assim a construção do nosso percurso profissional. Tal deverá permitir reunir, em algum momento, com cada um dos Chefes, e obter reconhecimento pelos resultados alcançados. Parece-me bem! Depois, as más notícias, de choque: somos quatro e vamos competir por uma única oportunidade de promoção. Tornou-se imediatamente  palpável a tensão crescente, e eram indisfarçáveis os olhares nervosos! No fundo da minha mente ainda ecoam as palavras: "Não queremos colaboradores de fraco desempenho."

Era mais do que claro que isto não ia um passeio no parque, perdão, no escritório!




As tarefas diárias foram-nos brevemente descritas pelo nosso supervisor, embora este possa ser um rótulo exagerado, uma vez que estávamos, basicamente, por nossa conta desde o primeiro momento.
 
Assim, iremos realizar projetos, percorrer o escritório de projeto em projeto, elaborar memorandos, e fazer pesquisa, sempre com o objetivo de reunir com os Chefes, com cada um deles. As horas diárias de trabalho deverão ser distribuídas por três tarefas, não mais. Nada muito elaborado, nem muito complicado. E ainda bem, porque já basta irmos estar numa corrida, uns contra os outros.

Além do mais, deram-nos alguma margem de manobra individual, quanto ao caminho a seguir. Sentia-me confortável com isso, não tendo de seguir uma rotina muito rigorosa, de obedecer a ordens e instruções a toda a hora, ou de confiar cegamente nos outros recém-chegados, ex-futuros-colegas, agora adversários determinados. 




Os primeiros projetos a escolher.

É uma boa sensação!

Preparar, prontos, partida.




E aqui vamos nós. Aqui vou eu! Colocar. O primeiro projeto que iniciei. Deslocar-me. Os primeiros passos pelo escritório. Colocar novamente, mover-me novamente, ou pesquisar. Primeiras escolhas. E o início do meu percurso profissional, tanto metaforicamente como literalmente, enquanto percorremos diferentes secções do escritório, um passo mais próximo de um dos Chefes e do instante de Avaliação Final de Desempenho.

O ritmo começa a tornar-se frenético, já que somos quatro empregados competitivos, e não há tempo a perder. A Ana e o Artur foram para a esquerda, e estão, por enquanto, a partilhar o mesmo projeto. O Alfredo ainda está para trás, mas sem dúvida que também ele vai começar, em breve, a correr.




Há algumas coisas que vos devo contar sobre os projetos, e que não nos foram previamente divulgadas. Bem, não é inteiramente verdade, caso tenham lido minuciosamente o Manual de Boas-Vindas..., mas …, adiante.

Ao embarcar num projeto passas a integrar a equipa, e podes assim obter alguma influência dentro da empresa. Estás a fazer um trabalho útil e, portanto, começas a ser notado. Mas atenção, os projetos não são todos iguais. Alguns vão proporcionar mais influência, enquanto outros não de trarão nenhuma. Inversamente, alguns abrirão portas para mais direções, oferecendo oportunidades acrescidas de movimento, enquanto outros abrirão menos. É preciso escolher bem, equilibrando influência e progressão.

Outra nota: todos os projetos são da empresa, e não dos trabalhadores. Assim, todos os colaboradores têm acesso a todos os projetos em execução, podendo obter a correspondente influência sobre a empresa, independentemente de quem tenha iniciado o projeto. O acesso a cada projeto é apenas restrito fisicamente, ou seja, é mesmo imprescindível aceder à secção do projeto.




Tendo feito alguma pesquisa, durante este dia de trabalho, os meus olhos abriram-se para o mundo da Política do Escritório. Notem que isto é algo em que não sou muito bom... Mas sei que tenho de desenvolver muito rapidamente esta capacidade, se quero continuar a ter uma possibilidade de ser promovido.

Há o dialeto próprio da política, causas, consequências e danos colaterais. Em que cada ação acarreta um ónus, seja em termos de influência da empresa, uma vez que muitas ações não são propriamente populares, em termos políticos, comprometendo opções futuras, ou mesmo ambos. E existem diferentes usos para a Política do Escritório, afetando projetos, empregados, outras ações, ou mesmo a reação ativa a ações de outros colaboradores. E há ainda efeitos normais e efeitos melhorados. 

Tudo isto levará o seu tempo a dominar, mas o tempo é escasso...




Segue os post-it, disseram.  De projeto em projeto. Porque aqui não há nenhum software sofisticado de gestão que permita acompanhar os projetos ou assinalar os percursos pelo escritório; há apenas um monte de notas autocolantes para te guiar!

Isto constitui uma grande surpresa, numa empresa tão avançada como esta, mas talvez o segredo do sucesso seja precisamente o fazer as coisas de modo diferente. Em todo o caso, adaptei-me rapidamente ao método de colar notas por todo o lado. Iniciar novos projetos cuidadosamente, verificar notas, manipular projetos, se necessário verificar novamente as notas, deslocar-me, monitorizar a concorrência, continuar a mover-me, não parar.

Há momentos em que pareço ficar bloqueado num projeto, sem grandes opções para progredir. É então que chega o momento de recorrer ao memorando que nos foi entregue inicialmente, usando-o como substituto dos post-it. Mas atenção, os memorandos são tão preciosos quanto escassos. Os recursos aqui são geridos de forma parcimoniosa e a obtenção de novos memorandos custará tempo de trabalho.




Estava tudo a correr razoavelmente bem, até que, de repente, me senti empurrado para trás. Alguém roubou os louros do meu trabalho! Foi o Alfredo! 

Como resultado, fui subitamente alocado a um projeto diferente, o percurso profissional que estava a seguir foi interrompido, e fiquei agora um passo mais atrás em relação à concorrência e mais longe do Chefe. Senti a ferroada provocada pelo uso da Política de Escritório para travar a minha progressão. 

Agora começam a perceber porque é que não revelei a verdadeira identidade dos meus ex- colegas: as coisas iam tornar-se feias, e isto foi apenas o começo! Vamos lá, se é assim que querem atuar, também sei fazê-lo! Veremos quem aguenta mais!




Ao fim de vários dias de trabalho árduo, indo e vindo entre projetos, e lutando contra a competição, conseguiu finalmente reunir com um dos Chefes. Foi a primeira vez!

Como reconhecimento pela minha dedicação à empresa, recebi um Certificado de Realização, e pude escolher um bónus para usar a meu favor. Ainda dorido da punhalada pelas costas desferida pelo Alfredo, optei por mergulhar de cabeça na Política do Escritório, selecionando a possibilidade de me dedicar a pesquisas adicionais.

Sentir-me empoderado pelo Chefe foi satisfatório, mas estava bem ciente de que nós os quatro perseguimos o mesmo objetivo, percorrendo caminhos semelhantes, e sem refeições grátis no menu. 

Uma reunião com um Chefe significa que estão ainda duas por realizar, antes de me precipitar para a avaliação final de desempenho.




Já se tinham passado dias e semanas, e muito trabalho tinha sido realizado, enquanto me movia entre diferentes projetos.

Percorria, literalmente, projetos, para aumentar a minha influência na companhia e para alcançar os Chefes. Usava toda a influência adquirida para manipular, em meu favor, a situação que me rodeava, para dificultar a progressão dos três A’s, para tentar encontrar a via rápida para a progressão.

As coisas estavam a tornar-se cada vez mais caóticas.  Não havia aliados possíveis, quando muito meros acordos táticos para evitar que um de nós se destaque irreversivelmente, pondo fim à esperança. 




A Política do Escritório é omnipresente. Fui empurrado para trás por mais vezes do que consigo contar, não para a estaca zero, mas mesmo assim tendo de refazer os meus passos, e alterar a progressão da minha carreira, uma e outra vez. Foi aí que os dias começaram a parecer-se todos iguais. Projeto, movimento, pesquisa, memorando, política. Pesquisa. Política. Mover-me. Política. Projeto. Política. Política. Política.

"A chave para uma carreira de sucesso no mundo corporativo é saber utilizar a política do escritório", o 1%.

Comecei a pensar em envolver-me em manobras subversivas, adotando algumas políticas extremas. Coisas como inserir a minha própria opinião, quem imaginaria! Ou atiçar as chamas e ficar a ver as coisas a arder. Coisas fora do normal, como formar um grupo, para gerar uma massa crítica disruptiva e abalar os alicerces. Até pensei em reportar algumas situações aos RH, ou ficar simplesmente a mandriar.

Não vou mentir. Recorri a algumas dessas táticas, numa tentativa de sentir algum tipo de normalidade, ou de justiça. Sem sucesso.




De repente compreendi porque é que a empresa tem o nome de Sysifus Corporation! Sabem, não sou muito versado em história antiga, mas lembro-me que havia aquele tipo... um grego, penso eu... com um nome semelhante. Tinha uma espécie de escritório numa montanha, e projetos em forma de pedra. Empurrando sempre em direção ao topo, apenas para voltar ao início. Subindo e descaindo de novo, sem nunca terminar. Facto ou ficção, não importa. Parece-me bastante real, agora.

Comecei a ter um sonho recorrente com o logótipo da empresa! Sim, é verdade, o logótipo da empresa! Tem um cubo, vermelho, como a cor do meu fato, empurrando um cilindro roxo, subindo uma pirâmide verde…


Fi-lo até ao fim. 

Sobrevivi, mas não ileso.

Não recebi a cobiçada promoção.

Não quero ser um "dente na engrenagem da sua grande companhia". 

Sísifo já não mora aqui.

Despeço-me!

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Para mais informações sobre o jogo acede a Sysifuscorp ou BGG.

Para leres mais histórias neste blog usa a etiqueta Contando histórias.

15 de agosto de 2021

Mod Canvas: Deixemo-las secar!

 

Fazer experiências com jogos é divertido! Experimentar abordagens diferentes, criar novas regras, multiplicar as possibilidades, revelar novos desafios. Ir mais além de jogar o jogo como ele é, e jogar com o jogo! Talvez alguns destes caminhos tenham atravessado a mente dos seus criadores, apenas para serem descartados, afinados, ou substituídos, quem sabe?

Desta vez vamos explorar Canvas, propondo uma versão ligeiramente modificada. Se não conheces bem o jogo, podes querer dar uma vista de olhos a Pintando sobre Tela, para aprender os elementos fundamentais e ter um vislumbre da sua belíssima componente artística.

Em Canvas começas por selecionar e recolher motivos, para depois escolher três de entre eles e assim completar, de uma vez só, uma pintura sobre tela.



Vamos dar um passo atrás, imaginando-nos no atelier, o olhar pousado sobre a tela, escolhendo um motivo, pintando uma primeira camada. Depois, paramos por um momento, observando o trabalho em curso. Tendo completado a primeira camada, é tempo de a deixar secar adequadamente, antes de continuar. Ah! Mas há tempo que sobra, a imaginação continua a fluir, e os pincéis anseiam pelo movimento. Porque não começar, entretanto, uma nova pintura? E mais outra? E depois regressar à primeira, iniciando uma nova ronda, pintando camada após camada nas várias obras em curso. 

Este pintar sem esperar, em sucessão, criando simultaneamente várias obras, é o princípio subjacente a Deixemo-las secar! Uma variante que requer apenas alterações menores às regras originais.

Maior número de fundos

Começas com 5 cartas com diferentes fundos, uma vez que farás cinco pinturas, em vez de três.

Haverá assim maior possibilidade de conseguir boas combinações de motivos, uma vez que os irás pintando imediatamente, sem os guardar para mais tarde. 




Escolhe e pinta

Seleciona o motivo que pretendes pintar, de entre os que estão disponíveis, despendendo peças de inspiração conforme necessário, como no jogo original.








Pinta-o imediatamente sobre um dos fundos, à tua escolha.

Não poderás guardar motivos para mais tarde os usar, ou para evitar que outros os usem!













Deixa-os secar

Repete o processo no teu próximo turno, mas com uma restrição: não podes aplicar a nova camada sobre o mesmo quadro, pois tens de deixar secar a camada inicial! Assim, escolhe outro dos teus fundos e começa uma nova pintura. Nunca podes pintar duas vezes seguidas sobre a mesma.

Se quiseres elevar a fasquia, começa a adicionar a segunda camada apenas após completares a primeira em todas as cinco obras!



Escolhe as obras para a exposição

Apenas três das tuas obras serão pontuadas, como no jogo original.

Por isso, tens que escolher quais as que apresentas a competição.

Depois, usa as regras base e descobre quem teve o melhor desempenho face aos critério da prova.





Isto é Deixemo-las secar! Experimenta! 
E comenta à vontade!


Há muitos outros caminhos para explorar, dá asas à tua imaginação. Podes querer jogar com o sistema de pontuação, por exemplo ordenando as pinturas segundo cada critério de avaliação e atribuindo pontos às posições, em lugar de valores absolutos. Ou podes até ousar fazer uma mistura de jogos, combinando Canvas e Dixit, ou Canvas e Modern Art (um que ainda não experimentei). Um mundo de escolhas! Diverte-te!

Para variantes de outros jogos, vê aqui.

30 de abril de 2021

Projetos de abril

 

Dia 30. Fim de abril. Mais um mês. Este foi intenso, quanto a projetos na terra dos jogos. Em volta das letras. Entre o engenho das letras e a engenharia das palavras. Entre idiomas distintos, revisões,  aperfeiçoamentos, polimentos, escritos de raiz. Da imagem de conjunto ao pormenor, aos padrões, aos desalinhamentos, aos erros que saltam para esta vista. Uma vez ROT, sempre ROT (como em Revisor Oficial de Textos, para os que não partilharam outras vidas). Do pormenor ao conjunto, com sentido, contando histórias, fotografando histórias. 

Traduzindo. De inglês para português. Um jogo que me é familiar, e de que gosto, e que vai agora ganhar uma versão revista e aumentada, em espanhol em português. Mais uma colaboração com a editora espanhola MasQueOca, que se junta a outras já feitas, para jogos bem interessantes e conhecidos de muitos: as expansões Vénus, Balearica e Cyprus, para o excelente Concordia; a expansão Kegs & More, para Heaven & Ale; e, mais recentemente, Pavlov’s House, agora em fase final de produção. Sem contar com mais uns quantos títulos destinados aos mais pequenos!

Revendo. Em português e em formato pequeno, para a alemã Board Game Circus, reeditando uma das primeiras colaborações, há um par de anos. Também em português, para a nacional Pythagoras Games, continuando uma colaboração que começou há quase dois anos, com 6 Castelos e com Garum. Uma estreia, para a alemã Vuca Simulations, em inglês, aqui em formato de livro de cenários para um jogo de guerra, daqueles com hexágonos e muitas peças.

Escrevendo. Sobre a Ilha dos Gatos. Com base num jogo cedido para o efeito pela britânica The City of Games. Frank West, o seu criador, em busca de conteúdos menos comuns, gostou de algumas das histórias que passaram por este blog! E assim surgiram Histórias de Gatos e Passos de Gatos.



No início do mês foi também tempo de outros escritas, entre os sentimentos associados aos jogos e as fotografias em conjuntos de seis, desta vez com os livros de regras, as palavras de novo, como objeto. 




E ainda deu para jogar Canvas, Railroad Ink - Deep Blue, Isle of Cats, Solenia e Codenames. Agora, tem estado espalhado sobre a mesa o Mini Express, por agora para jogar em multi-jogador a solo, com os meus heterónimos, para recordar as regras antes de experimentar a verdadeira versão a solo, face ao autómato.







Venha maio!

25 de abril de 2021

A Ilha dos Gatos: Parte II - Passos de gato

 


Exemplar do jogo cedido por Frank West, The City of Games

Ainda bem que decidiste vir! Parece que as minhas histórias de gatos despertaram o teu interesse, eh? Bem, e aqui estamos nós, na Ilha dos Gatos. Como podes perceber, pelos barcos ancorados, não estamos sós, há outros aventureiros por aqui, em busca de gatos, riquezas e fama. É melhor manteres-te perto de mim, observando e aprendendo com as minhas ações. Guiar-te-ei passo a passo. Este será um intenso dia de treino com as mãos na massa!




É o alvorecer. Está na altura de despertar!

Eu sei, por anos de experiência, o que vai acontecer em breve: os gatos vão sair dos seus esconderijos e dirigir-se, em números iguais, aos campos de ambos os lados da ilha. É como se fossem atraídos por nós, visitantes, aventurando-se nesta ilha, uma vez que aparecem sempre em número par, o dobro dos gatos, em relação ao número de exploradores na jornada. O que é intrigante, mas afortunado, uma vez que assim haverá gatos suficientes para toda a gente salvar.

Olha! Ali estão eles! Um Hissnipper e um Mhoxxite a olhar diretamente para nós, um Garmin à direita, um Teruvian a esticar-se encosta abaixo, e outro Teruvian ao lado, e mais uns quantos ao fundo. Uma vista maravilhosa, não é?

Sim, eu sei o impacto provocado pelo primeiro encontro com gatos às cores… mas agora para de mirar! Precisamos de tomar atenção e pensar rapidamente, uma vez que apenas poderão apanhar um de cada vez, dois no máximo, antes de os levar para o barco, esvaziar os cestos, e regressar para nova apanhada. E, entretanto, os campos ficarão à mercê dos outros, para fazerem as suas capturas. Precisamos por isso de delinear uma estratégia, de começar a fazer escolhas. Qual será hoje a nossa primeira opção? O Garmin de verde cristal?




Sim, claro, iremos às colinas, mas ainda tempos trabalho para fazer antes disso. Já te contei que são animais fugidios, que precisaremos de peixe para os atrair, e cestos grandes para os carregar até ao barco.

Primeiro, as primeiras coisas! E a primeira coisa do dia, de todos os dias, de facto, será pescar. Não és um pescador experiente, dizes? Não há problema! Os gatos são espertos, e terão escolhida esta ilha por boa razão: acontece que é abundante em peixe, tornando fácil a pescaria. Não há pressa, competição, dificuldades, para encontrar peixe fresco.

Concentremo-nos em apanhar vinte peixes fresco em cada dia. Nem menos, nem mais. Não me perguntes porquê, parece ser a quantidade certa para carregar. E será suficiente, quer para os gatos, quer para as nossas refeições. Caso, no final do dia, sobre peixe, guardá-lo-emos durante a noite, para nos servir amanhã. Os gatos não o recusarão.

Portanto, venham vinte peixes frescos!




Sim, sim … lá chegaremos às colinas. Mas antes, temos de nos sentar em círculo, com os outros aventureiros, e partilhar alguns planos para o dia. Bem, não os revelaremos todos, pois eles continuam a ser nossos competidores.

O dia passará depressa, pelo que será inútil considerar mais de sete passos de exploração. Porquê? Porque o tempo corre. E porque parece existirem por aqui alguns números mágicos: gatos aos pares, em dobro das pessoas, vinte peixes, sete passos … É uma ilha estranha.

Eis como isto funciona: primeiro pensamos nas sete possibilidades que temos para hoje; optamos por duas e passamos as restantes cinco a quem está sentado à nossa esquerda; ao mesmo tempo, recebemos cinco novas hipóteses, de quem está à nossa direita; escolhe mais duas; repete e, novamente, escolha duas; e uma última. No final voltamos a ter sete opções de exploração, mas não as mesmas que tínhamos no início.

Estarão em jogo cestos, botas de caminhada, lições, tesouros, gatos raros, peixe e alguns truques. Não é fácil, mas se o fizermos bem, aumentaremos as hipóteses de ter um bom dia. Claro que todos esperam alcançar o mesmo, e no final podemos mesmo todos vir a salvar mais gatos! 




Depois, é tempo de planear, já que cada passo implicará tempo e esforço, e também termos de comer! Assim, temos de escolher cuidadosamente o que vamos fazer durante o dia, sempre contando o peixe da nossa reserva, para garantir que teremos o suficiente para atrair uns quantos gatos.

Por isso, será avisado não querer fazer de mais em cada dia, equilibrando a exploração com o salvamento de gatos. Acho que ficamos apenas com estes quatro passos para hoje. O que te parece? Ok, e aqui vai, três, mais um, e mais outro, fazendo cinco peixes no total. Nada mau. Ainda ficamos com peixe suficiente para os bichanos. 




Não, ainda não é tempo de nos dirigirmos aos campos: é altura de estudar.

Pois, há lições para aprender em cada dia. Se recordares bem o que te disse, dias atrás, haverá lições que guardaremos para nós, não as partilhando com ninguém, e haverá lições para partilhar, lendo-as em voz alta, para que qualquer um possa fazer bom uso delas.

Tais lições, escritas pelos antigos, dizem-nos um pouco sobre o nosso próprio povoado, a nossa gente, revelando o que eles mais valorizam. Por isso, serão um guia precioso para esta jornada, se queremos ter uma receção calorosa no regresso. É necessário fazer as escolhas certas pelo caminho.




Ok, estamos quase prontos para correr encosta acima!

Vamos contar os cestos e dar-lhes o uso adequado. Lembra-te que alguns cestos são robustos, e podem ser usados uma e outra vez. Infelizmente, só trouxemos um desses no barco … pode valer a pena tentar arranjar mais alguns!

Entretanto, recorreremos a cestos que só serão usados uma única vez, já que estes gatos antigos têm garras, e não apreciam a viagem! Podemos até fazer cestos improvisados, um a partir de dois já quebrados.

Não te esqueças: um gato, um cesto.




Peixe, confere! Cesto, confere! Botas de caminhada, confere! Agora temos apenas de decidir se andamos, ou se tentamos deixar para trás os companheiros de jornada, de modo a podermos fazer a primeira escolha. Aperta as botas, porque elas são a chave para bem nos posicionarmos! 

Mas não te esqueças que, provavelmente, não teremos resistência para ultrapassar todos, todos os dias. É melhor encontrar o ritmo certo, para aproveitar ao máximo os cinco dias na ilha. 

Aqueles gatos no caminho da montanha, dizes? Estão sempre a observar-nos! É como se cada um deles tiver adotado um aventureiro distinto, e eles estão sempre por ali, em sincronia com a nossa posição nos campos. O roxo adotou-nos, e como vês, seremos os segundos a escolher no dia de hoje. Não que tenhamos qualquer vantagem, nem ara o caso, desvantagem, em salvar Vandermills, os gatos da mesma família do que nos observa. É como é, uma constante lembrança.




Chegou o momento há tanto esperado.

Foca-te nos cestos. Um cesto para cada gato. Dois cestos, dois gatos, ainda que normalmente um de cada vez. Não, esquece o Hissniper à esquerda, ou o Teruvian à direita. Um cesto carrega um único gato, mas pode ser de qualquer família. Deixa os desenhos de gato para o tempo caderno, como algo para mais tarde recordar.

Observa novamente os campos, os gatos que ainda lá estão em cada lado, o peixe na nossa reserva, os gatos já a abordo, o tempo de ir e vir, e depois … faz a tua escolha! 

Isso mesmo, os gatos do lado direito parecem estar sempre com mais apetite, e não virão por menos de cinco peixes … talvez porque a encosta seja mais inclinada, e normalmente demorem mais tempo a chegar à baía. É um pouco mais do que os três peixes necessários para os gatos do lado esquerdo. Algo a ter em conta no planeamento e na decisão sobre que gatos apanhar primeiro.




Boa captura, um Mhoxxite. Não foi assim tão difícil, pois não? Se tens peixe, terás um gato no cesto num piscar de olhos. Tão simples como isso!

Depois de apanhar um gato, há que rumar ao barco e libertá-lo a bordo. Ora não é uma coisa assim tão simples de se fazer, porque há muito em que pensar. Estas são criaturas que mudam de forma, e que requerem diferentes espaços no convés, circulando até por mais do que um compartimento. E, acima de tudo, não te esqueças das lições aprendidas.

Vejamos este Mhoxxite acabado de apanhar. Ficará melhor junto aos outros já a bordo, alargando a família, ou ficará em solitário? Preferiremos encher completamente o compartimento da lua a estibordo, mantendo o barco bem arrumado? Encontrará por nós um mapa de tesouro compatível? Afugentará alguns dos ratos? Ou deixá-lo-emos na amurada, de onde poderá ver, uma última vez, a ilha?

Tudo isto requer tempo de ponderação, e enquanto fazemos o percurso de ida e volta, os outros aventureiros estarão a tentar a sua sorte no resgate de gatos.




Agora que já salvámos alguns catos, e que as sombras alongadas assinalam o findar do dia, temos ainda tempo para um derradeiro movimento, para encontrar tesouros ou, talvez até, aqueles fascinantes Oshax.

E, uma vez mais, teremos de considerar como distribuir esta carga a boro. Talvez usemos os tesouros para preencher alguns espaços vazio, entre os gatos estendidos, para acabar de encher um dos compartimentos do barco, ou até para eliminar alguns dos ratos restantes!




Ao longo do dia fomos fazendo uso dos truques na nossa manga, para ganhar alguma vantagem: algum peixe adicional, um cesto novinho em folha para usar até ao fim da viagem, mais alguns tesouros. E podemos até ter ficado mais criativos no largar de gatos a bordo.

É todo um conjunto de coisas que não auxiliam a melhor completar a nossa missão. Mas to a atenção, os outros aventureiros, por seu turno, certamente também recorrerão aos truques que possuam.




À medida que a escuridão se entranha, todos os gatos adquirem aquele tom pardacento, tornando-se indistinguíveis, à medida que desaparecem dos campos para nunca mais serem vistos. Este dia chegou ao fim, e os campos de ambos os lados da ilha estão agora vazios. Na certeza, porém, de que amanhã, quando o sol fizer clarear a ilha uma vez mais, uma enxurrada de gatos, de outros gatos, encherá novamente os campos.




E pronto, está completado um dia inteiro na Ilha dos Gatos! Uma experiência e tanto, não é?

Após o quinto dia, os vigias avistarão as velas negras dos barcos de Vesh Mão-Escura. Não queremos deparar com uma frota dessas em mar aberto, nem ficar cercado na ilha. Será então tempo de partir.

Nada mais haverá a fazer: a missão chegou ao fim. Podemos descansar e admirar esta frota, agora bem mais colorida, navegando para casa.




Bem, não duvido que se encontrarão ainda alguns ratos a bordo, fazendo esta viagem de regresso por direito próprio, já que sobreviveram ao número crescente de gatos, e aos pesados tesouros espalhados pelo convés.




Após o regresso, em segurança, é tempo de fazer contas.

Como agora bem sabes, não se tratava apenas de salvar gatos, ou de reunir as maiores famílias de gatos. Isso claro que ajuda, no final, sem qualquer dúvida, mas as jornada foi também feita de lições privadas e partilhadas, tesouros, perícia na gestão do convés, e extermínio de rato!

Tudo isto conta, se queres ser saudado como o melhor salvador de gatos e caçador de tesouros! 




Posso afirmar, pelo teu olhar, que em breve regressarás à ilha, ou a ilhas semelhantes, tão grande é o apelo, e tão incerto o desfecho. E regressarás em companhia dos mesmos ou de outros exploradores, em família, ou até sozinho. Bem, nunca completamente sozinho, porque descobrirás que a tua irmã se infiltrou a bordo, e ela será uma temível adversária.



Agora vou repousar, antes de uma nova aventura, que já espera por mim mais à frente no caminho. Entretanto, não consigo deixar de imaginar como tudo isto deve parecer, na perspetiva de um gato, no alto da colina, espreitando o oceano para além da enseada, e busca de velas, barcos, e homens …