5 de novembro de 2019

"Nem todos os que vagueiam estão perdidos"

Cerebria, MindClash Games, 2018

Há um ano terminava a contagem decrescente.
Há um ano começava este blog.
Iniciava a viagem.
Vagueando pela terra dos jogos.
Sem me preocupar aonde ela me levaria.
Sem saber o que poderia descobrir.
Sem saber quem encontraria.

Um ano de viagem.
Um ano de emoções.
Como na imagem e nas palavras.
Em intensidades, doses e efeitos variáveis.
Ao sabor dos dias ou até das horas.

Comfort. Insecurity. Euphoria. 
Loneliness. Trust. Bleakness. Sociability. 
Lethargy. Safety. Pessimism. Freedom. Doubt. Passion.




O caminho começou na zona de conforto, a solo, criando um novo blog. Com elementos distintos das Notas, que contam já com mais de dez anos. Adicionando à escrita, os jogos e as fotos. Três coisas minhas. Como quarto elemento, as línguas. Evitando a escolha, mais simples, entre o inglês e a língua mãe. Duplicando o trabalho, criando versões gémeas, em inglês e em português. Para partilhar com mais pessoas. A manter! E a que se somaram contactos, cada vez mais frequente, em espanhol e, esporadicamente, em francês. Comunicando com mais viajantes.

Uma parte extensa da caminhada é feita no virtual, que é também real. Nas redes que alteram o espaço-tempo. Que anulam umas fronteiras, ainda que criem outras. Que multiplicam as possibilidades, até ao risco de sobrecarga. Que implicam opções, quanto ao quem, como, quando, com que proximidade. No Facebook, agora alargado aos grupos temáticos; no Twitter, em conta criada para o efeito; no Kickstarter, por onde passam primeiros projetos e empresas estabelecidas; e, à medida dos encontros, no Reddit, Discord, Tabletopia.


InvictaCon 2018


Os jogadores juntam-se à volta das mesas. Toca-se em peças, cartas, dados, tabuleiros. Em casa, com amigos, como no mundo em que cresci e em que o acesso a novos jogos era limitado. Agora a terra dos jogos é muito maior, com muito mais habitantes, com muitas mais espécies, muito mais acelerada, estendendo-se por cafés, clubes e convenções.

Ainda cedo, neste percurso, surgiu a passagem fugaz pela InvictaCon. Aperitivo para outros encontros, já em 2019, na LeiriaCon, em ambiente muito internacional, e na RiaCon. E, mais para o Verão, os encontros regulares organizados pelo Grupo de Boardgamers de Aveiro. Gondomar, Leiria, Estarreja e Aveiro, entre outros. Geografia com jogos, para repetir e alargar!

Continuando a vaguear fui ter a outras paragens.


Moon, Pablo Garaizar, 2019


Vendo jogos em vários idiomas, pensei que poderia contribuir para aumentar a presença do Português, tornando os jogos acessíveis a mais pessoas, para quem a língua pode ser uma barreira ou, pelo menos, diminuir a apetência. Isto, mesmo considerando a pequena dimensão do mercado em Português de Portugal.

Começou então uma outra fase, atrevendo-me a iniciar contactos. Que tal uma versão das regras em Português? Alguns silêncios, muitas negativas, alguns "talvez ..." e "se", mas também várias respostas afirmativas! No início foram as baleias, dando alguma confiança. Seguiram-se vários projetos. Alguns tornaram-se já, neste curto intervalo de tempo, contactos regulares. Por coincidência, chegou-me hoje mesmo o resultado de um destes projetos. Tinha chegado à Lua!

De forma natural brotou uma nova ramificação, baseada na experiência de ROT, Revisor Oficial de Textos como designávamos entre nós, num grupo restrito: a revisão ou edição de regras.

Depois, o envolvimento na própria criação dos jogos, com comentários aos conceitos e mecanismos, em fase de desenvolvimento, e o teste de protótipos, em fases mais avançadas.

E também o papel de júri, num concurso para novos projetos.

Ao todo, mais de quarenta colaborações, o que representa muito mais pessoas.

Se continuar a vaguear tempo suficiente talvez possa alcançar outros dois níveis, que sei que estão por aí, na terra dos jogos: a elaboração de raiz de um livro de regras e a conceção própria de uns quantos jogos, cujas ideias estão em maturação.

Muito passou desde aquelas tardadas de finais dos anos 70-80, e dos meses de férias, recriando competições desportivas ou conflitos militares. Mas algo permaneceu inalterado!




Em paralelo, a coleção de jogos foi também aumentando, entre novas aquisições, resultado de algumas das colaborações, ofertas ou até mesmo de um instante de sorte numas rifas! São umas duas dezenas de novos mundos, alguns dos quais ainda por experimentar. Até porque, como resulta da intensidade que a viagem foi adquirindo, o tempo para parar e para jogar nem sempre abunda.

Foram muitos os encontros ao longo deste ano, entre Autores, Ilustradores, Escritores, Criadores de conteúdos, Editores, Gestores e, claro, Jogadores, espalhados pelo mundo! Não os vou enumerar agora, mas certamente irão aparecendo por aqui, neste blog, A Preto e Branco.

"Nem todos os que vagueiam estão perdidos", O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien.

29 de outubro de 2019

Noite com jogos



Desta vez no CUFC-Centro Universitário de Fé e Cultura, bem junto à Universidade, e que se torna assim numa terceira sede para os jogos de tabuleiro na região de Aveiro, juntando-se a S. Bernardo e à Borralha, Águeda. Mesas bem preenchidas e animadas, que se prometem repetir em todas as últimas segundas-feiras de cada mês.

Para além das conversas e das fotografias, foi também possível ir a jogo!

Comecei por um teste ao protótipo de Xodul, uma criação de Sílvia Rodrigues, com peças e alguns movimentos inspirados no xadrez mais tradicional, no shogi e no xiang-qi, mas com mais uns toques de originalidade. Um desafio para quem gosta de jogos abstratos, a dois, e a preto e branco!

Depois foi tempo de dar a descobrir Azul, um jogo que se vem tornando um favorito de muitos, pelas peças, pelo próprio mecanismo e, também, pela facilidade de aprendizagem e duração.

E, para terminar, experimentar Sagrada, que estava na lista já há algum tempo. Um jogo muito colorido, a respeitar a temática dos vitrais, com um conjunto de regras simples, mas de domínio não tão evidente, e umas pitadas de sorte à mistura, através dos inúmeros dados que constituirão os vitrais.

Há mais, no próximo mês!


Jogando o protótipo de Xodul

Ensinando o Azul

Experimentando o Sagrada


Participa também nesta JAM session - Jogando à Volta do Mundo - e segue a etiqueta JAM.
Envia uma foto de uma sessão de jogo, nome do jogo, o teu nome, cidade, País (e, se quiseres, uma frase curta sobre a sessão e ou uma foto da cidade) para gamesinbw@gmail.com.

27 de outubro de 2019

Em busca do conhecimento - Ep. 5: Na cadeira de Newton



Novamente em viagem, após meses de trabalho árduo. E se bem que goste das tardes, e das noites, passadas sobre os livros, escrevinhando e pensando, confesso que sentia falta da liberdade da viagem.

Agora, as paisagens iam-se desenrolando, vagarosamente, em direção a Norte. Sentia-se, no ar, a aproximação ao mar. Seguiu-se a travessia das águas da Mancha, o avistar dos penhascos brancos de Dover, por entre a neblina que se dissipava, e o desembarque já do outro lado.

Retomando o caminho sob terra firme, passei por Cantuária, com a sua catedral e o castelo, que ostentava os sinais da passagem dos séculos. Atravessei o Tamisa, a leste de Londres, por onde contava passar no regresso. Continuei, por entre colinas verdes de água, da água dos rios e da que frequentemente descia dos céus. Atingi, por fim, a paragem seguinte.

Trocara a cidade com uma Universidade, pela Universidade com uma cidade.

Estava em Cambridge. Edifícios cheios de história e de conhecimento, com as silhuetas recortadas ao pôr-do-sol, capelas, colunas e espiras, os pátios relvados, o rio e as pontes. Peterhouse College, remontando a finais do século XIII, Corpus Christi, King’s, Queen’s, St. John’s, ente outros. E, claro, Trinity College. Pisando o mesmo chão que Newton pisara, não há tantos anos!

A primeira palestra de Newton, como professor Lucasiano, teve lugar no Trinity College, em janeiro de 1670. Foi sobre a sua investigação em ótica (...). A audiência era pequena, ninguém veio à segunda palestra, e ele continuou a falar para uma sala vazia em quase todas as palestras que deu, ao longo dos dezassete anos seguintes. Depois disso, desistiu de toda a pretensão de ensinar, algo de que nunca gostara. (tradução livre a partir de *)

Os dilemas com que me vinha confrontando, cada vez mais, entre a busca e a transmissão do conhecimento.

A busca, exigente, intensa, incessante, absorvente, das respostas que trazem sempre novas perguntas. Saber, saber mais, saber primeiro, descobrir, desvendar, de alguma forma criar. Isolar do mundo para perceber o mundo.

A partilha, a transmissão do saber e do método, acender a chama, despertar o entusiasmo, inquietar o outro. Fornecer pistas, em vez de soluções, fazer ler e reler, demonstrar, debater, ouvir, saber ouvir, ensinar, repetir, fazer repetir.

Em que me tornaria, ao longo desta viagem, ao longo desta vida?

(continua)


Uma viagem à boleia de Newton, um jogo de Nestore Mangone e Simone Luciani, Ediciones Mas que Oca (2018) sob licença de Cranio Creations.

(*) Remarkable Physicists - From Galileo to Yukawa, Ioan James, Cambridge University Press (2004).

21 de outubro de 2019

Em busca do conhecimento - Ep. 4: Longas jornadas de trabalho



Já conhecia a cidade. Os seus usos e costumes. Tanto os de dia, como os da noite. Sob a luz do sol, ou entre as sombras. Fruto de alguns meses de muito estudo e de algumas deambulações.

Mas havia que pensar no presente, e também no futuro próximo. Precisava de arranjar um expediente para aumentar os ganhos, que se vêm revelando justos para manter o nível de vida.

Uma parte daqueles destinar-se-ia, naturalmente, a adquirir livros. Não me era suficiente tocar nas suas capas, ou folhear as suas páginas. Precisava de os ter comigo, de os poder transportar o conhecimento e imaginação, de aumentar o número dos meus companheiros de viagem.

Uma outra parte seria necessária para preparar a próxima viagem, agora que a minha estadia em Paris se aproximava do fim.

Felizmente não era difícil, a alguém da minha condição e com os meus conhecimentos, de encontrar alunos necessitados de aulas particulares.

Temos também de levar em linha de conta o facto de muitos professores terem um rendimento auxiliar como advogados, pregadores, presidentes de colégios, membros de conselhos de universidade ou de faculdade, bibliotecários, professores particulares, etc. (*)

E foi assim que os meus dias se tornaram mais longos, entre os tempos na Universidade, as aulas particulares e cada vez menos tempos de ócio. Em compensação, teria mais volumes para transportar. E também uma bolsa um pouco mais recheada.

(continua)


Uma viagem à boleia de Newton, um jogo de Nestore Mangone e Simone Luciani, Ediciones Mas que Oca (2018) sob licença de Cranio Creations.

(*) História da Universidade na Europa, Vol. II – As Universidades na Europa Moderna (1500-1800), Coordenação de Hilde de Ridder-Symoens, Imprensa Nacional Casa da Moeda (2002).

19 de outubro de 2019

Conjuntos de 6 - N.º 2 - Das cidades

Os Descobridores de Catan


Seis.

As faces de um dado.

Os lados do hexágono.

Fotografias sem comentário.

Reunidas sob um denominador comum.


Os Castelos da Borgonha


Alhambra


Squad Leader


Tokyo Highway


Solenia

13 de outubro de 2019

Em busca do conhecimento - Ep. 3: Et voilá, Paris!



Partira. Viajara. E chegara!

Chegara ao centro do meu mundo para os próximos tempos. A Universidade, a Sorbonne e os restantes colégios, o Observatório Astronómico, as bibliotecas. Habituava-me ao modus parisiensis de vida no colégio, entre os horários de levantar e deitar, os períodos de estudo, a leitura e a memorização, as conversas com os outros estudantes, os mestres, as refeições.

Começava também a conhecer a cidade. O Sena e as suas margens, a ilha e a catedral, as ruas e ruelas, as estalagens, as tabernas, as pessoas.

Não menos importante, pelo menos para mim, eram os momentos em que deambulava pelas tipografias e pelos livreiros, folheando quer os livros legais, quer, de modo mais furtivo, os livros que circulavam à margem.

“A cidade inteira age como um livro e os cidadãos caminham por ela lendo-a, embebendo-se de lições civis a cada passo que dão”. E. Darnton, Os Best-Sellers Proibidos da França Pré-Revolucionária, in Homens Bons.

Não sabia quanto tempo ficaria por aqui. Mas uma certeza tinha: voltaria a partir em busca de outras paragens, de outras vivências, de outras sabedorias. Talvez em busca, também, de mim próprio.

(continua)


Uma viagem à boleia de Newton, um jogo de Nestore Mangone e Simone Luciani, Ediciones Mas que Oca (2018) sob licença de Cranio Creations.

Homens Bons (2015), Arturo Pérez-Reverte, Edições ASA.
História da Universidade na Europa, Vol. II – As Universidades na Europa Moderna (1500-1800), Coordenação de Hilde de Ridder-Symoens, Imprensa Nacional Casa da Moeda (2002).

8 de outubro de 2019

Elementar!



Gosta de uma boa trama policial, de seguir de perto a investigação, de reparar nas pistas, descobrir incongruências, antecipar-se aos protagonistas? Está preparado para ler os casos, ouvir testemunhos, registar factos? Já se imaginou na pele de um Sherlock Holmes ou do seu fiel companheiro Dr. Watson?

Se as respostas às questões anteriores são afirmativas, então é bem provável que goste de de viver os casos propostos em Sherlock Holmes Consulting Detective – The Thames Murders & other cases!

Este jogo, da autoria de Gary Grady, Suzanne Goldberg e Raymond Edwards, magnificamente ilustrado por Pascal Quidault, Arnaud Demaegd, Nerlac e Bernard Bitler, numa edição da francesa Space Cowboys, reinventa, de alguma forma, os livros-jogo de aventuras, nos quais a história vai sendo construída em função das ações que escolhemos, e que nos fazem saltar de um parágrafo para um outro.




Londres. 12 de março de 1988. Um corpo é encontrado. A investigação começa.

Não seremos Sherlock! Mas é ele quem nos convoca, nos apresenta o caso e nos manda em missão.

Somos um dos Irregulares de Baker Street. Gente da rua que vive nas sombras, observando e escutando, ajudando o famoso detetive. 




As primeiras informações sobre o caso, as circunstâncias da morte, os primeiros relatos, pessoas a contactar em busca de informações.

Sobre a mesa, o mapa de Londres, repleto de locais que se podem vir a revelar importantes, e também de becos sem saída.




Os jornais dos dias anteriores com as notícias da época, os eventos sociais, nascimentos, casamentos e mortes, a economia, o desporto, as artes, a cena internacional, as trivialidades, os classificados.

Permitirão juntar pistas, nomes, conhecimentos? Permitirão confirmar alibis? Levarão a motivos insuspeitos? Ou serão, apenas, irrelevantes para o caso?




O Diretório de Londres, com a lista alfabética de pessoas, instituições e moradas.

Musgrove, Lord Gordon, 79 NW, que é o mesmo que dizer 79 Noroeste.

Winchester Arms Co, 21 EC, East Central, sob o cabeçalho Gunsmiths.



Moradas a cruzar com o mapa.
Mapa a cruzar com moradas.
Medir distâncias e tempos.

O Rio Tamisa, o Parlamento, a Embaixada Americana, a New Scotland Yard.
Regent Street, New Oxford Street, High Holborn.

Nomes familiares a quem já por lá andou. Nomes que se tornam familiares ao longo da história, Nomes que se tornarão familiares ao longo da história, nesta Londres de há 230 anos.




O desenrolar do jogo é simples: escolhe-se um local, com base na informação disponível, para visitar ou para entrevistar alguém; procura-se o parágrafo correspondente no livro do caso; lê-se a nova informação; reflete-se e repete-se o processo.

Podemos sempre contar com algumas ajudas importantes, como Sir Jasper Meeks, o médico legista do Hospital de Saint Bartholomew, Porky Shinwell, o dono do Pub Raven and Rat, Langdale Pike, colunista social, ou o próprio Holmes, entre outros.

No final, há que comparar o nosso percurso dedutivo, e o resultado obtido, com a solução do Mestre. Ficaremos próximos?


A experiência começou em solitário, mas será, sem dúvida, mais divertida a dois ou a ou a três, cruzando opiniões, discutindo o que fazer, formulando hipóteses.

E depois de um caso resolvido, o que precisará, talvez, de um bom par de horas, há mais outros nove à espera! E depois de todos resolvidos, que tal ser narrador para um novo grupo de jogadores?

Um excelente jogo, que se lê, ou que se vai lendo, e conversando.

Anoitece em Londres.