30 de abril de 2021

Projetos de abril

 

Dia 30. Fim de abril. Mais um mês. Este foi intenso, quanto a projetos na terra dos jogos. Em volta das letras. Entre o engenho das letras e a engenharia das palavras. Entre idiomas distintos, revisões,  aperfeiçoamentos, polimentos, escritos de raiz. Da imagem de conjunto ao pormenor, aos padrões, aos desalinhamentos, aos erros que saltam para esta vista. Uma vez ROT, sempre ROT (como em Revisor Oficial de Textos, para os que não partilharam outras vidas). Do pormenor ao conjunto, com sentido, contando histórias, fotografando histórias. 

Traduzindo. De inglês para português. Um jogo que me é familiar, e de que gosto, e que vai agora ganhar uma versão revista e aumentada, em espanhol em português. Mais uma colaboração com a editora espanhola MasQueOca, que se junta a outras já feitas, para jogos bem interessantes e conhecidos de muitos: as expansões Vénus, Balearica e Cyprus, para o excelente Concordia; a expansão Kegs & More, para Heaven & Ale; e, mais recentemente, Pavlov’s House, agora em fase final de produção. Sem contar com mais uns quantos títulos destinados aos mais pequenos!

Revendo. Em português e em formato pequeno, para a alemã Board Game Circus, reeditando uma das primeiras colaborações, há um par de anos. Também em português, para a nacional Pythagoras Games, continuando uma colaboração que começou há quase dois anos, com 6 Castelos e com Garum. Uma estreia, para a alemã Vuca Simulations, em inglês, aqui em formato de livro de cenários para um jogo de guerra, daqueles com hexágonos e muitas peças.

Escrevendo. Sobre a Ilha dos Gatos. Com base num jogo cedido para o efeito pela britânica The City of Games. Frank West, o seu criador, em busca de conteúdos menos comuns, gostou de algumas das histórias que passaram por este blog! E assim surgiram Histórias de Gatos e Passos de Gatos.



No início do mês foi também tempo de outros escritas, entre os sentimentos associados aos jogos e as fotografias em conjuntos de seis, desta vez com os livros de regras, as palavras de novo, como objeto. 




E ainda deu para jogar Canvas, Railroad Ink - Deep Blue, Isle of Cats, Solenia e Codenames. Agora, tem estado espalhado sobre a mesa o Mini Express, por agora para jogar em multi-jogador a solo, com os meus heterónimos, para recordar as regras antes de experimentar a verdadeira versão a solo, face ao autómato.







Venha maio!

25 de abril de 2021

A Ilha dos Gatos: Parte II - Passos de gato

 


Exemplar do jogo cedido por Frank West, The City of Games

Ainda bem que decidiste vir! Parece que as minhas histórias de gatos despertaram o teu interesse, eh? Bem, e aqui estamos nós, na Ilha dos Gatos. Como podes perceber, pelos barcos ancorados, não estamos sós, há outros aventureiros por aqui, em busca de gatos, riquezas e fama. É melhor manteres-te perto de mim, observando e aprendendo com as minhas ações. Guiar-te-ei passo a passo. Este será um intenso dia de treino com as mãos na massa!




É o alvorecer. Está na altura de despertar!

Eu sei, por anos de experiência, o que vai acontecer em breve: os gatos vão sair dos seus esconderijos e dirigir-se, em números iguais, aos campos de ambos os lados da ilha. É como se fossem atraídos por nós, visitantes, aventurando-se nesta ilha, uma vez que aparecem sempre em número par, o dobro dos gatos, em relação ao número de exploradores na jornada. O que é intrigante, mas afortunado, uma vez que assim haverá gatos suficientes para toda a gente salvar.

Olha! Ali estão eles! Um Hissnipper e um Mhoxxite a olhar diretamente para nós, um Garmin à direita, um Teruvian a esticar-se encosta abaixo, e outro Teruvian ao lado, e mais uns quantos ao fundo. Uma vista maravilhosa, não é?

Sim, eu sei o impacto provocado pelo primeiro encontro com gatos às cores… mas agora para de mirar! Precisamos de tomar atenção e pensar rapidamente, uma vez que apenas poderão apanhar um de cada vez, dois no máximo, antes de os levar para o barco, esvaziar os cestos, e regressar para nova apanhada. E, entretanto, os campos ficarão à mercê dos outros, para fazerem as suas capturas. Precisamos por isso de delinear uma estratégia, de começar a fazer escolhas. Qual será hoje a nossa primeira opção? O Garmin de verde cristal?




Sim, claro, iremos às colinas, mas ainda tempos trabalho para fazer antes disso. Já te contei que são animais fugidios, que precisaremos de peixe para os atrair, e cestos grandes para os carregar até ao barco.

Primeiro, as primeiras coisas! E a primeira coisa do dia, de todos os dias, de facto, será pescar. Não és um pescador experiente, dizes? Não há problema! Os gatos são espertos, e terão escolhida esta ilha por boa razão: acontece que é abundante em peixe, tornando fácil a pescaria. Não há pressa, competição, dificuldades, para encontrar peixe fresco.

Concentremo-nos em apanhar vinte peixes fresco em cada dia. Nem menos, nem mais. Não me perguntes porquê, parece ser a quantidade certa para carregar. E será suficiente, quer para os gatos, quer para as nossas refeições. Caso, no final do dia, sobre peixe, guardá-lo-emos durante a noite, para nos servir amanhã. Os gatos não o recusarão.

Portanto, venham vinte peixes frescos!




Sim, sim … lá chegaremos às colinas. Mas antes, temos de nos sentar em círculo, com os outros aventureiros, e partilhar alguns planos para o dia. Bem, não os revelaremos todos, pois eles continuam a ser nossos competidores.

O dia passará depressa, pelo que será inútil considerar mais de sete passos de exploração. Porquê? Porque o tempo corre. E porque parece existirem por aqui alguns números mágicos: gatos aos pares, em dobro das pessoas, vinte peixes, sete passos … É uma ilha estranha.

Eis como isto funciona: primeiro pensamos nas sete possibilidades que temos para hoje; optamos por duas e passamos as restantes cinco a quem está sentado à nossa esquerda; ao mesmo tempo, recebemos cinco novas hipóteses, de quem está à nossa direita; escolhe mais duas; repete e, novamente, escolha duas; e uma última. No final voltamos a ter sete opções de exploração, mas não as mesmas que tínhamos no início.

Estarão em jogo cestos, botas de caminhada, lições, tesouros, gatos raros, peixe e alguns truques. Não é fácil, mas se o fizermos bem, aumentaremos as hipóteses de ter um bom dia. Claro que todos esperam alcançar o mesmo, e no final podemos mesmo todos vir a salvar mais gatos! 




Depois, é tempo de planear, já que cada passo implicará tempo e esforço, e também termos de comer! Assim, temos de escolher cuidadosamente o que vamos fazer durante o dia, sempre contando o peixe da nossa reserva, para garantir que teremos o suficiente para atrair uns quantos gatos.

Por isso, será avisado não querer fazer de mais em cada dia, equilibrando a exploração com o salvamento de gatos. Acho que ficamos apenas com estes quatro passos para hoje. O que te parece? Ok, e aqui vai, três, mais um, e mais outro, fazendo cinco peixes no total. Nada mau. Ainda ficamos com peixe suficiente para os bichanos. 




Não, ainda não é tempo de nos dirigirmos aos campos: é altura de estudar.

Pois, há lições para aprender em cada dia. Se recordares bem o que te disse, dias atrás, haverá lições que guardaremos para nós, não as partilhando com ninguém, e haverá lições para partilhar, lendo-as em voz alta, para que qualquer um possa fazer bom uso delas.

Tais lições, escritas pelos antigos, dizem-nos um pouco sobre o nosso próprio povoado, a nossa gente, revelando o que eles mais valorizam. Por isso, serão um guia precioso para esta jornada, se queremos ter uma receção calorosa no regresso. É necessário fazer as escolhas certas pelo caminho.




Ok, estamos quase prontos para correr encosta acima!

Vamos contar os cestos e dar-lhes o uso adequado. Lembra-te que alguns cestos são robustos, e podem ser usados uma e outra vez. Infelizmente, só trouxemos um desses no barco … pode valer a pena tentar arranjar mais alguns!

Entretanto, recorreremos a cestos que só serão usados uma única vez, já que estes gatos antigos têm garras, e não apreciam a viagem! Podemos até fazer cestos improvisados, um a partir de dois já quebrados.

Não te esqueças: um gato, um cesto.




Peixe, confere! Cesto, confere! Botas de caminhada, confere! Agora temos apenas de decidir se andamos, ou se tentamos deixar para trás os companheiros de jornada, de modo a podermos fazer a primeira escolha. Aperta as botas, porque elas são a chave para bem nos posicionarmos! 

Mas não te esqueças que, provavelmente, não teremos resistência para ultrapassar todos, todos os dias. É melhor encontrar o ritmo certo, para aproveitar ao máximo os cinco dias na ilha. 

Aqueles gatos no caminho da montanha, dizes? Estão sempre a observar-nos! É como se cada um deles tiver adotado um aventureiro distinto, e eles estão sempre por ali, em sincronia com a nossa posição nos campos. O roxo adotou-nos, e como vês, seremos os segundos a escolher no dia de hoje. Não que tenhamos qualquer vantagem, nem ara o caso, desvantagem, em salvar Vandermills, os gatos da mesma família do que nos observa. É como é, uma constante lembrança.




Chegou o momento há tanto esperado.

Foca-te nos cestos. Um cesto para cada gato. Dois cestos, dois gatos, ainda que normalmente um de cada vez. Não, esquece o Hissniper à esquerda, ou o Teruvian à direita. Um cesto carrega um único gato, mas pode ser de qualquer família. Deixa os desenhos de gato para o tempo caderno, como algo para mais tarde recordar.

Observa novamente os campos, os gatos que ainda lá estão em cada lado, o peixe na nossa reserva, os gatos já a abordo, o tempo de ir e vir, e depois … faz a tua escolha! 

Isso mesmo, os gatos do lado direito parecem estar sempre com mais apetite, e não virão por menos de cinco peixes … talvez porque a encosta seja mais inclinada, e normalmente demorem mais tempo a chegar à baía. É um pouco mais do que os três peixes necessários para os gatos do lado esquerdo. Algo a ter em conta no planeamento e na decisão sobre que gatos apanhar primeiro.




Boa captura, um Mhoxxite. Não foi assim tão difícil, pois não? Se tens peixe, terás um gato no cesto num piscar de olhos. Tão simples como isso!

Depois de apanhar um gato, há que rumar ao barco e libertá-lo a bordo. Ora não é uma coisa assim tão simples de se fazer, porque há muito em que pensar. Estas são criaturas que mudam de forma, e que requerem diferentes espaços no convés, circulando até por mais do que um compartimento. E, acima de tudo, não te esqueças das lições aprendidas.

Vejamos este Mhoxxite acabado de apanhar. Ficará melhor junto aos outros já a bordo, alargando a família, ou ficará em solitário? Preferiremos encher completamente o compartimento da lua a estibordo, mantendo o barco bem arrumado? Encontrará por nós um mapa de tesouro compatível? Afugentará alguns dos ratos? Ou deixá-lo-emos na amurada, de onde poderá ver, uma última vez, a ilha?

Tudo isto requer tempo de ponderação, e enquanto fazemos o percurso de ida e volta, os outros aventureiros estarão a tentar a sua sorte no resgate de gatos.




Agora que já salvámos alguns catos, e que as sombras alongadas assinalam o findar do dia, temos ainda tempo para um derradeiro movimento, para encontrar tesouros ou, talvez até, aqueles fascinantes Oshax.

E, uma vez mais, teremos de considerar como distribuir esta carga a boro. Talvez usemos os tesouros para preencher alguns espaços vazio, entre os gatos estendidos, para acabar de encher um dos compartimentos do barco, ou até para eliminar alguns dos ratos restantes!




Ao longo do dia fomos fazendo uso dos truques na nossa manga, para ganhar alguma vantagem: algum peixe adicional, um cesto novinho em folha para usar até ao fim da viagem, mais alguns tesouros. E podemos até ter ficado mais criativos no largar de gatos a bordo.

É todo um conjunto de coisas que não auxiliam a melhor completar a nossa missão. Mas to a atenção, os outros aventureiros, por seu turno, certamente também recorrerão aos truques que possuam.




À medida que a escuridão se entranha, todos os gatos adquirem aquele tom pardacento, tornando-se indistinguíveis, à medida que desaparecem dos campos para nunca mais serem vistos. Este dia chegou ao fim, e os campos de ambos os lados da ilha estão agora vazios. Na certeza, porém, de que amanhã, quando o sol fizer clarear a ilha uma vez mais, uma enxurrada de gatos, de outros gatos, encherá novamente os campos.




E pronto, está completado um dia inteiro na Ilha dos Gatos! Uma experiência e tanto, não é?

Após o quinto dia, os vigias avistarão as velas negras dos barcos de Vesh Mão-Escura. Não queremos deparar com uma frota dessas em mar aberto, nem ficar cercado na ilha. Será então tempo de partir.

Nada mais haverá a fazer: a missão chegou ao fim. Podemos descansar e admirar esta frota, agora bem mais colorida, navegando para casa.




Bem, não duvido que se encontrarão ainda alguns ratos a bordo, fazendo esta viagem de regresso por direito próprio, já que sobreviveram ao número crescente de gatos, e aos pesados tesouros espalhados pelo convés.




Após o regresso, em segurança, é tempo de fazer contas.

Como agora bem sabes, não se tratava apenas de salvar gatos, ou de reunir as maiores famílias de gatos. Isso claro que ajuda, no final, sem qualquer dúvida, mas as jornada foi também feita de lições privadas e partilhadas, tesouros, perícia na gestão do convés, e extermínio de rato!

Tudo isto conta, se queres ser saudado como o melhor salvador de gatos e caçador de tesouros! 




Posso afirmar, pelo teu olhar, que em breve regressarás à ilha, ou a ilhas semelhantes, tão grande é o apelo, e tão incerto o desfecho. E regressarás em companhia dos mesmos ou de outros exploradores, em família, ou até sozinho. Bem, nunca completamente sozinho, porque descobrirás que a tua irmã se infiltrou a bordo, e ela será uma temível adversária.



Agora vou repousar, antes de uma nova aventura, que já espera por mim mais à frente no caminho. Entretanto, não consigo deixar de imaginar como tudo isto deve parecer, na perspetiva de um gato, no alto da colina, espreitando o oceano para além da enseada, e busca de velas, barcos, e homens … 

17 de abril de 2021

A Ilha dos Gatos: Parte I - Histórias de gatos

 


Exemplar do jogo cedido por Frank West, The City of Games

O barco está pronto e prestes a levantar âncora. É tempo de desligar a música que estou a ouvir, sobre patas sujas e amigos peludos, algo relacionado com monstros e homens, por mais apropriada que possa parecer. Os sons que me rodearão nos próximos dias serão muito diferentes: o murmúrio das águas, o ranger do convés de madeira, o tamborilar dos cabos de encontro aos mastros, o silvo do vento acariciando as velas. Isto enquanto navegarmos para a ilha, preparados para iniciar a exploração, ansiosos por aprender novas lições ao longo da jornada, por procurar tesouros perdidos no tempo, e, acima de tudo, por resgatar gatos, muitos gatos!

Há algo de fascinante nestas criaturas que mudam de forma, capazes de se esticarem ao comprido sob o sol quente, de se enrolarem numa bola no inverno, ou de se enroscarem numa caixa demasiado pequena. E podemos ainda acrescentar os saltos elegantes, ou a mais completa imobilidade, o suave ronronar, e, claro, aquela pose inata de superioridade.

Ouvi falar de outras ilhas, habitadas por bem mais gatos do que humanos, rodeadas por um outro oceano, um que às vezes é pacífico. Aoshima é o nome de uma delas. Neko no shima, se entendes o que quero dizer. Sim, isso mesmo, Ilha dos Gatos.

Desculpa-me, estou a divagar … Como deu para perceber, gosto de gatos! Não que isso seja uma condição necessária para nos aventurarmos na Ilha dos Gatos, e apreciar os desafios que lá nos aguardam. Mas, bem, se também gostares deles, não duvido que verás esta viagem sob uma luz bem distinta.




Voltando à história, os nossos batedores de Ponta da Tempestade descobriram que, afinal, as lendas antigas eram verdadeiras. A Ilha dos Gatos está, de facto, povoada por raças antigas de gatos. Raças que rapidamente aprenderás a distinguir com um simples olhar, principalmente pelas suas cores, que nunca antes viste num gato, e pela sua cauda. Podes até aprender os seus nomes, ou pelo menos alguns deles.

The naming of cats is a difficult matter
It isn't just one of your holiday games
You may think at first I'm mad as a hatter
When I tell you a cat must have three different names *

Bem vês, há aquele nome razoável para ser usado todos os dias, com alguns gatos até a partilharem o mesmo nome, tal como acontece connosco, humanos. Depois, há o nome requintado, distinto, um nome que nunca pertence a mais do que um gato.

Of names of this kind, I can give you a quorum
Such as Munkustrap, Quaxo or Coricopat
Such as Bombalurina, or else Jellylorum *

Munk... Munkust... quê? Hmm, mais difícil do que esperavas, não? Tornemos isto mais simples. Não vais conseguir dizer o nome de cada gato da ilha. Fiquemo-nos pelo nome das famílias de gatos, não tão diferentes ao ouvido como os Munkustraps ou Jellylorums: os Hissnipers azuis, os Mhoxxites laranja, os Teruvians vermelhos, os Starry Vandemils rosas, os Crystal Garmins verdes, e os ainda mais únicos Oshaxs listados.

But above and beyond there's still one name left over
And that is the name that you will never guess
The name that no human research can discover
But the cat himself knows and will never confess *

Certo, o terceiro nome está claramente fora do nosso alcance!




Estamos quase lá, quase a chegar à enseada acolhedora. E, subitamente, sinto a pressão! Isto não será uma passeata pelo parque, porque trata-se de uma missão de resgate de emergência. As sombras aproximam-se, céleres, sob a forma dos exércitos flutuantes de Vesh Mão-Escura, que não pouparão ninguém no seu caminho! Não arriscaremos um encontro destes, e assim que for avistada a mão vermelha sobre as velas negras desfraldadas, deixaremos a ilha, para navegar de regresso a Ponta da Tempestade, em segurança.

Trata-se, de facto, de uma corrida contra o tempo, para resgatar o maior número possível de gatos, apanhar tesouros, e tirar partido das lições aprendidas. Cinco dias, de acordo com as melhores previsões. Cinco dias de trabalho árduo, da alvorada ao ocaso, para encher o barco, cumprir a missão, e enfrentar o escrutínio público no regresso.




Mas como raio vou atrair para o barco aqueles gatos de espírito livre, podes interrogar-te. De certeza não será com comida da cidade, uma vez que estão acostumados a ter peixe fresco como refeição! Bem, pescarei para eles, já que gatos serão gatos. Rapidamente acreditarão que fomos treinados para os alimentar e servir, tornando-se cada vez mais confiantes, sem esquecer que nunca rejeitarão um prato saboroso. Depois, atrever-se-ão até a roubar peixe de dentro dos cestos. E esse é o momento certo! Snap! Já percebeste, só é preciso fechar o cesto, e ala até ao barco.

Pois, sei que não trouxemos assim tantos cestos connosco, e é preciso um cesto para cada gato … Assim teremos de ir e vir, um gato de cada vez, soltando-os a bordo na certeza de que não saltarão para a água. Para a frente e para trás, tantas vezes quantas as necessárias, subindo com os cestos vazios, descendo com os felinos. Cestos, peixe e barcos (I hear you, fish and ships), é tudo o que precisamos. Mais cedo do que tarde teremos gatos a correr pelo convés.




Olha! Já há gatos a vaguear, pintalgando os campos com manchas de cor. O campo do lado esquerdo da ilha parece de mais fácil acesso, mas pode ser preferível apanhar alguns gatos no lado direito, já que esta viagem não se resume a fazer a primeira captura, nem a mais fácil.

Até porque, no regresso, valerá a pena manter as famílias de gatos juntas e numerosas. E é por esta razão que haverá alguma escolha dos gatos a resgatar, confiando que, entre todos nós aventureiros, muitos gatos serão salvos, e os barcos regressarão bem carregados.

Já antes falei dos tesouros? Tens a certeza? Sim, tesouros, perdidos no tempo. Espalhados por toda a ilha. Porque não enriquecer, enquanto resgato gatos?

Um pequeno detalhe que não podemos esquecer: quando o sol se deita, os gatos que ainda estão nos campos desaparecem rapidamente nas sombras que se alongam, para não mais serem vistos! O sol levantar-se-á outra vez, assinalando um novo dia, e gatos descerão para os campos. Mas serão outros gatos, não os mesmos do dia anterior. Por isso, há que escolher bem!




Chegou o momento de explorar a ilha. E estas botas, como a maioria delas, são feitas para andar. E eu andarei. Poderei até correr! Mas tenho de escolher o rito certo, uma vez que ficaremos aqui cinco dias, sempre com gatos diferentes para resgatar, em cada um deles. Às vezes precipitar-me-ei, para ser o primeiro a chegar aos campos, e escolher o gato para apanhar, enquanto outras vezes tomarei o meu tempo.

Sempre alerta. Olhando em frente, para avistar os gatos nos campos; olhando sobre o ombro, para medir a competição; olhando para trás, para a enseada, para avaliar a carga de cada barco, tentando descortinar os planos dos rivais.




Haverá lições para aprender, ao longo do caminho. Ouvindo, ou melhor, lendo, os pergaminhos dos antigos. Serão um guia para esta viagem, ajudando a decidir, a escolher sabiamente, a planear um exitoso regresso a casa.

Algumas lições serão partilhadas com os companheiros de aventura, e caberá a cada um fazer bom uso delas. Outras serão mantidas em segredo, apenas ao alcance dos nossos olhos. E ainda outras não terão qualquer uso. É preciso lê-las cuidadosamente, e tê-las sempre presentes ao delinear a estratégia para os dias que se seguem.

No final da expedição, quem será reconhecido como o explorador de maior sucesso que alguma se vez aventurou na Ilha dos Gatos?




Já antes falei dos tesouros? A sério?! Desculpa, estou a repetir-me... Deve ser deste sol escaldante… Dizia eu, há tesouros, e há tesouros. Alguns são daquele género mais comum, não muito grandes, e fáceis de encontrar nas encostas. Mas há também verdadeiras raridades, feitas de pedras preciosas grandes e brilhantes. Com a sorte do nosso lado poderemos apanhar uma mão cheia!

Felizmente que o barco não é assim tão pequeno, havendo espaço suficiente no convés para gatos e tesouros. Ainda assim, o próprio carregamento dá que pensar, até porque não haverá tempo para o reorganizar mais tarde, e queremos manter juntas as famílias dos gatos, enquanto empilhamos cuidadosamente os tesouros nos cantos e espaços vazios, ao mesmo tempo nos tentamos livrar daqueles ratos irritantes que fizeram clandestinamente toda a viagem.




Um verdadeiro achado seria cruzarmo-nos com alguns Oshax, aquela rara raça de gatos, com listas avermelhadas e tufos verdes. Esses, não encontraremos nos campos abertos, junto dos outros gatos. E sabe-se que comem muito! Uma espécie de realeza, por estas bandas.

No entanto, são mais amigáveis do que se poderia supor, e integram-se bem numa família normal de gatos. É por isso que deves apresentá-los a outros gatos, mal os colocas a bordo, e eles passarão a ser membros leais dessa família, preservando simultaneamente a sua pose característica.




Nesta corrida para bater a aproximação de Vesh Mão-Escura, e os outros aventureiros, terei, sem dúvida, que recorrer a alguns truques, aqui e ali, para ganhar vantagem. Seja para pescar um pouco mais do que o habitual, usar cestos improvisados, explorar mais para o interior da ilha, afugentar gatos de um campo para outro, capturar dois deles de uma vez só, ou fazer um melhor uso do espaço disponível no convés. Vale tudo! É só dizeres!




Como já sabemos, os gatos dão-se bem em família. Mas é preciso não esquecer as lições aprendidas, em privado ou em grupo, ao decidir o paradeiro de gatos e tesouros no convés. Gatos, tesouros, mapas, e ainda alguns ratos. Uma bela visão! E ainda não acabamos!




Agora fazes uma melhor ideia do que é necessário para embarcar numa jornada de resgate de gatos. Mas não te iludas: é preciso experimentar em primeira mão!

Porque não me acompanhas durante um dia inteiro na Ilha dos Gatos? Estarás em segurança, tendo-me como guia, enquanto, talvez, te revele mais alguns segredos desta arte. Isso é um sim? Ótimo! Encontramo-nos aqui ao terceiro raiar do sol. Até lá.


* Cats Libretto, © The really useful group. Do musical baseado em Old Possum's Book of Practical Cats, de T. S. Eliot.

10 de abril de 2021

Conjuntos de 6 - N.º 7 - Livros de regras

Tsuro

 

Seis.

As faces de um dado.

Os lados do hexágono.

Fotografias sem comentário.

Reunidas sob um denominador comum.



Peak Oil



Star Wars: Outer Rim



Castles of Burgundy



Cerebria: The Inside World



Squad Leader

3 de abril de 2021

Nuvem de sentimentos


Que sentimento associas mais a jogos de tabuleiro?
Em uma palavra apenas 😉

Esta era o desafio.

Colocado, há uma semana, em grupos de jogos de tabuleiro no Facebook.

E foram cerca de 200 as respostas, em inglês, português e espanhol.

Este é o resultado em inglês, o idioma mais usado, após uniformização de termos similares.

E tu? Estás nesta nuvem?

14 de março de 2021

Pintando sobre tela

 

Canvas. Tela. Tela para pintar. Este é um jogo que me atraiu desde o momento em que foi lançado na plataforma de financiamento coletivo Kickstarter, a 21 de abril de 2020.

A beleza da caixa, o conceito original de criar quadros sobrepondo cartas transparentes, os materiais, a conceção gráfica, tudo me levava a querer saber mais. A informação disponível na página da campanha era apelativa, clara e organizada de forma elegante, em consonância com o jogo transparecia.

Apesar de ter apenas apoiado um jogo por esta via, e que está ainda por chegar, não demorei a decidir juntar-me ao projeto, optando pela edição base do jogo, sem extras como uns mini cavaletes para suportar e exibir as nossas criações.

E foi assim que passei a fazer parte dos mais de 16 000 apoiantes deste jogo, que se traduziram num valor angariado de 713 171 dólares, ou seja, de praticamente 600 000€! Data prevista de entrega do produto final: dezembro de 2020.

Apesar do ano estranho e difícil que se viveu, todo o processo de forma exemplar, com uma campanha muito bem gerida, informação disponibilizada atempadamente, interação constante, consideração de sugestões em fase final de desenvolvimento do jogo, por exemplo, quanto às variantes para jogar a solo, e a produção, na China. 

E nos primeiros meses deste ano Canvas chegava à Europa, e a Portugal. Parabéns aos criadores Jeffrey Chin e Andrew Nerger, ao artista Luan Huynh, e à editora Road to Infamy!




Em Canvas, somos pintores, criando telas, imaginando, combinando motivos, jogando com os fundos, os padrões, e a distribuição sobre a superfície. Temos de criar não uma, nem duas, nem muitas, mas, exatamente, três obras. Aí, o nosso trabalho acaba, e passamos a expetadores de quem ainda esteja de volta da tela, até todos terem três pinturas à sua frente.




Mas as criações não são feitas completamente à vontade de cada um. Haverá que ter em conta não só os motivos disponíveis em cada momento, que não poderemos apenas ir acumulando para usar mais tarde, mas também um princípio uniforme, a usar por todos os pintores e em todas as telas: cada uma terá de ser composta por quatro elementos, uma base e três camadas. Afinal, trata-se de um concurso de pintura, e os concursos têm regras!

As bases, apresentando padrões coloridos, constituirão o fundo da nossa pintura, em tons quentes ou frios, evocando a luz ou acolhendo as sombras, insinuando formas ou desformas. 

Cada camada, por sua vez, permitirá adicionar um ou mais motivos, colocando-os em realce ou sobrepondo-os. A escolha é variada, entre figuras humanas ou animais, paisagens ou objetos, reproduções da realidade ou coisas imaginadas.




Cada camada de pintura é representada por uma carta transparente, existindo sessenta no total, todas diferentes, sem qualquer repetição. Sessenta cartas para combinar em conjuntos de três, em que a ordem também importa, permitindo tapar ou evidenciar detalhes.

São muitas possibilidades, para quem quiser fazer o cálculo das combinações e permutações possíveis, mas julgo que a maioria dos pintores destas telas não se preocupará muito com estes números!




A parte inferior das camadas, já fora da zona de pintura propriamente dita, contém dois elementos adicionais: uma palavra e um conjunto de símbolos.

Palavras, sim, porque estas obras terão título! À medida que as camadas são sobrepostas, também as palavras se vão sobrepondo, ou justapondo. E, por isso, também aqui, a ordem por que se colocam as camadas terá o seu efeito no resultado final.

A tela com a figura feminina à chuva, junto ao candeeiro, intitula-se Wandering Warning, a queda de bolas incandescentes sobre a cidade, vista através da janela, tem a designação de Imminent Complexity, e a figura com uma máscara e uma teia de aranha em fundo, Masked Darkness.

Quanto aos símbolos, são elementos que se podem traduzir em pontos, interessando apenas aqueles que ficarem visíveis na obra final, não sendo considerados os que ficarem tapados.




Mas como é se obtêm as cartas transparentes para usar? Bem, é aqui que entra a esteira que vem com o jogo, o baralho das cartas, as paletes, e a competição com os outros pintores pela escolha dos motivos!

Estarão sempre disponíveis cinco cartas sobre a esteira. Em cada turno, um pintor tem a opção de obter uma única dessas cartas-camadas, ou de finalizar uma pintura, se já tiver material suficiente para o efeito. 

A carta mais à esquerda pode ser sempre obtida de forma gratuita, pelo que o pintor nunca ficará impedido de obter mais um motivo para a sua obra. Já para chegar a qualquer outra carta, é preciso recorrer à inspiração, simbolizada pelas paletes que cada um tem: é preciso colocar uma palete em cada carta que se pretenda ignorar, da esquerda para a direita, até atingir a carta pretendida. Assim, para obter a terceira carta é preciso usar duas paletes. Uma vez a carta retirada, as outras deslocam-se cobrindo o espaço vazio, e é revelada uma nova carta do baralho.

Se houver paletes na carta escolhida, ficam para nós, reforçando a nossa reserva de inspiração para voos futuros. Temos, pois, de gerir este pequeno mercado de inspiração e de motivos, ao alcance de todos os pintores. São paletas de escolhas.

Quando tivermos acumulado três cartas, poderemos optar entre continuar a obter outras, sempre uma por turno, ou completar uma pintura. Isso mesmo, assim de uma vez, em traço rápido! Quando decidimos pintar é para finalizar! Ou seja, não vamos criando as pinturas à medida que recolhemos as camadas. Ao invés, quando decidimos pintar, escolhemos um dos fundos ao nosso dispor, três camadas, e a ordem pela qual as colocamos sobre o fundo, ficando todo o conjunto organizado e protegido dentro de uma capa transparente.

Ora, o concurso de pintura tem de seguir o seu curso e é preciso começar a revelar as obras. Assim, não podemos ter mais do que cinco cartas-camadas na nossa mão. Quando atingirmos cinco, teremos, obrigatoriamente, de pintar no turno seguinte. Não é possível adiar à procura da obra perfeita! A exposição aguarda por nós.




Mas qual é o objetivo de tudo isto? Acredito que, para muitos pintores, o prazer da composição vai mesmo por ser o principal objetivo, pela estética, pelos conceitos implícitos ou explícitos, pelo jogo das palavras que dão título.

No entanto, em Canvas, o papel dos críticos, ou dos membros do júri, é representado por um conjunto de cartas objetivo, quatro das quais em uso em cada sessão. São elas que definem os critérios de apreciação, são elas que definem quais as combinações de símbolos que serão premiadas, uma vez concluída cada pintura.

É o exemplo da Simetria, que requer a presença de dois símbolos iguais em posições simétricas na faixa inferior da pintura.




No caso da Proximidade, é privilegiada a adjacência de círculos e de quadros, representando, respetivamente, intensidade e os padrões, o que acontece uma vez na tela Heavy Purpose, com o seu fundo a fazer lembrar corais, uma âncora à esquerda, criaturas marinhas no topo, e a figura humana sobre a escada, procurando alcançá-las.

O objetivo cumprido confere uma distinção roxa. No final do jogo, e como se tinha obtido uma outra distinção roxa noutro quadro, totaliza-se duas menções relacionadas com o objetivo Proximidade, o que se traduzirá em cinco pontos.




Depois, no final, é somar os pontos referentes às distinções alcançadas pelas três pinturas de cada um, e descobrir qual o pintor que melhor cumpriu os objetivos do concurso de pintura!

E o mais provável é que, logo a seguir, se inscrevam num novo concurso!




Este é Canvas, uma experiência para saborear em camadas, literalmente, sobrepondo cartas transparentes, e metaforicamente, jogando com as imagens, com as palavras que dão título às obras, e com a combinação de símbolos.

A cada um o que mais o divertir, num espírito que pode ser mais, ou menos, competitivo, neste jogo muito simples de aprender, que se joga em não mais do que trinta minutos, podendo reunir até cinco pintores à volta da mesa ou ser jogado em solitário, e que agradará a pessoas com diferentes gostos.

Para além do mais, Canvas vem com detalhes cuidados de conceção, como a possibilidade de se pendurar a caixa de jogo como um quadro, que de facto é, ou o uso de formas nos símbolos e pelas que creio se destinar a facilitar o uso por pessoas com dificuldade de perceção de cores. 

Se quiserem experimentar, podem aproveitar a versão pronta a imprimir, em acetato ou similar, disponível na página da campanha.

Boas pinturas!